1.
Observações preliminares
Falar
sobre a questão da linguagem em Mao Tsetung é tarefa extremamente difícil. Com
efeito, ele não deixou nenhum escrito que tratasse especificamente sobre ela.
Do que temos disponível em línguas ocidentais, eu consultei as Obras
escolhidas, em quatro volumes (doravante OE 1, 2, 3, 4), disponíveis em
inglês, francês, espanhol e português; Quatro ensaios filosóficos
(doravante EF), em inglês, francês, espanhol e alemão): Escritos militares
(EM), em português, francês, inglês e espanhol. Além desses, consultei também Filosofia
de Mao Tsetung, da editora Boitempo, de Belém (PA), de 1978, que contém quatro
ensaios, sendo que todos aparecem nas obras anteriormente mencionadas. Pois
bem, em nenhuma dessas publicações encontrei algum ensaio dedicado
especificamente à questão da linguagem. Diante disso, o que me restou foi
respigar aqui e ali em sua imensa obra as passagens em que Mao a menciona. Além
disso, fiz uso do recurso de transpor o que ele disse a propósito de outros
fenômenos culturais para o âmbito da linguagem. Com isso, podemos integrar
ideias deixadas por ele dispersas num todo razoavelmente coerente.
Mao
era um homem da ação, da prática. No entanto, era também um marxista convicto.
Assim sendo, não poderia menosprezar a teoria. Tanto que deixou uma valiosa
contribuição para o pensamento e a filosofia marxista (cf. EF e Sader 1982,
entre outros). Além do mais, ele era radical, no sentido marxiano da palavra.
Da combinação desse espírito prático e radical com um desejo muito grande de
erradicar as injustiças sociais que grassavam em seu país resultou um líder
revolucionário. Seu objetivo principal era, portanto, tirar o povo chinês da
miséria, livrá-lo da exploração capitalista e imperialista.
Se
seu objetivo era erradicar injustiças sociais, deveria voltar-se para uma
política de massas. É o que ele efetivamente fez. Numa primeira fase da
revolução chinesa, ele se dedicava sobretudo aos camponeses, pois eram dos mais
explorados. Mais tarde, sobretudo com o início da revolução cultural, ele
passou a enfatizar a juventude, uma vez que ela não tem nenhum compromisso com
as distorções do passado. Foi a época dos temíveis guardas-vermelhos. Houve
muitos excessos, mas se não tivesse passado por esse processo, hoje a China
seria apenas mais um fundo de quintal do imperialismo das multinacionais, com
uma minoria privilegiada de um lado e uma imensa maioria do povo na miséria
absoluta.
No
período que vai de 1920 a 1945, Mao teve que lutar contra dois inimigos, um
externo e outro interno. O inimigo externo era o invasor fascista japonês. O
interno era o partido do Kuomintang, comandado por Tchiang Kai-Chek que,
posteriormente, formaria um governo fantoche do imperialismo norte-americano em
Formosa (Taiwan). Diante dessa situação, nada mais natural que seus escritos
fossem em geral de conclamação do povo para a defesa do país contra os dois
inimigos, ordens aos comandados, diretrizes para os líderes locais, avaliações
da situação etc. Num texto de 1944, Mao estabeleceu as prioridades pra os
chineses da época: "No nosso trabalho, a guerra vem em primeiro lugar,
depois vem a produção e depois a cultura" (OE 3, p. 285). Não obstante, em
sua atividade prática de líder revolucionário a linguagem, em seu sentido mais
amplo, desempenhava um papel de suma importância. Ele tinha que se comunicar
com as massas, com líderes regionais sem muita instrução, com estudantes etc. Dessa
prática de interação política com as grandes massas surgiu uma concepção da
linguagem facilmente perceptível.
2.
Cooperação versus competição.
Sabemos
que qualquer comunidade, qualquer agrupamento de pessoas só existe e subsiste
como tal se tiver um conjunto de regras que oriente o comportamento individual.
Do contrário, prevalece a lei do mais forte, do mais esperto, do mais
inescrupuloso, como era o caso na China pré-revolucionária. Esse conjunto de
regras não é nada mais nada menos que
linguagem, no sentido mais amplo da palavra. Como é criada essa linguagem? O
agente da história é o próprio homem. A linguagem está incluída na história, ou
seja, a linguagem é criada pelo próprio homem.
Em
princípio, há duas maneiras de se elaborar o conjunto de regras que orientam o
comportamento coletivo e o individual (Couto 1987: 69-71). A primeira delas
consiste na coordenação da vontade coletiva. As regras são estabelecidas de
baixo para cima. Todos os interessados participam de sua elaboração. O método
usado é, por conseguinte, o cooperativo, que é o único democrático. É
ele que foi praticado, embora inconscientemente (cf. Marx 1978: 329), no
surgimento das línguas históricas. Na luta pela sobrevivência, as pessoas
tinham que interagir. Dessa interação foi surgindo um conjunto de regras, um
instrumento para o entendimento mútuo, ou seja, a língua, sem que o
percebessem. Como não poderia deixar de ser, essa língua foi evoluindo pari
passu com a comunidade que a usava.
A
segunda maneira de surgimento das regras do jogo (da linguagem, da língua, no
caso) é através da subordinação da vontade da maioria à de uma minoria ou até
mesmo à de uma única pessoa. Ou seja, em vez de se proceder cooperativamente, o
método usado é o competitivo. Aí surgem os espertalhões que, por um
acidente histórico qualquer, dispõem de registros (orais ou escritos ou da
língua de épocas anteriores. Como são os únicos detentores dela, passam a
considerá-la como a única correta e a impô-la à coletividade. A língua viva,
concreta, usada pelo povo passa a ser tachada de errada por eles, e o povo
passa a ser considerado ignorante, sem instrução, sem conhecimento da linguagem
castiça dos antigos. Isso é válido para qualquer comunidade em que imperam
relações de produção competitivas, de privilégios, mesmo que os detentores do
poder se considerem socialistas. Na época atual, tais espertalhões são os
gramáticos, muitos filólogos, os planejadores do ensino e todo o aparelho
ideológico escolar.
Como
já se pode antever diante do exposto acima, Mao Tsetung é decididamente pelo
método cooperativo, pois para ele "o povo, e só o povo, constitui a força
motriz na criação da história universal" (OE 3, p. 318). No caso
especificamente chinês, diz ele que "a nossa cultura é uma cultura do povo"
(OE3, p. 287). Por outras palavras, ele adota "o ponto de vista de
massas" (OE3, p. 243), que "têm latente uma enorme força
criadora" (OE 3, p. 242). Entendendo estabelecimento da linguagem
cooperativamente como unificação, pergunta ele: "Como se deve unificar a
China? Unificação autocrática, feita por um ditador, ou unificação democrática,
realizada pelo povo?" (OE3, p. 383).
Para
um seguidor da teoria do conhecimento marxista, como Ao, "toda a direção
correta é necessariamente 'das massas para as massas'. Isso significa escolher
ideias das massas (ideias dispersas, não sistemáticas), concentrá-las
(transformá-las por meio do estudo em ideias sintetizadas e sistematizadas), ir
de novo às massas para propagá-las e explicá-las de maneira que as massas as
tomem como suas, persistam nelas e as traduzam em cação; e ainda verificar a
justeza dessas ideias no decorrer da própria ação das massas. Depois é preciso
voltar a concentrar as ideias das massas e levá-las outra vez às massas, para
que estas persistam nelas e as apliquem firmemente. Sucessivamente,
repetindo-se infinitamente esse processo, as ideias vão-se tornando cada vez
mais correctas, mais vivas e mais ricas" (OE3, P. 179). Só assim os
dirigentes, os líderes falarão a mesma linguagem do povo, marcando "na
mesma cadência" (OE 4, p. 582) que ele. É necessário que os representantes
do povo se convençam "de que a minoria deve obedecer à maioria" (OE
4, p. 582). Os líderes têm de se convencer de que "só quando se é o
representante das massas se pode educar as massas, e só quando se é aluno delas
se pode chegar a ser para elas um professor" (OE 3, p. 122). Ninguém
conferiu poderes ao filólogo e ao gramático para dizer que a língua usada pelo
povo é errada e que só a sua linguagem antiquada é correta.
Contrariamente
ao que fazem os legítimos representantes do povo (OE 3, 120-122, 405), que
propugnam por uma linguagem comprometida com o povo, estabelecida pela
cooperação de todos os interessados, os filólogos, os gramáticos e o aparelho
ideológico de estado constituem, na China, "a camarilha reaccionária que
representa o sector dos grandes senhores de terras, grandes banqueiros e
grandes compradores" (OE 3, p. 344). Eles não aceitam o fato de que a
linguagem é dinâmica, de que ela está em constante evolução, tal qual a
comunidade em que é usada. Não percebem, ou querem aceitar, que a linguagem
evolui tanto que as pessoas que "estiverem presas durante dois anos, em
'currai' não sabem mais o que está acontecendo no mundo. Quando são libertadas
e alguém conversa com elas, são incapazes de dar respostas sensatas. Elas ainda
falam a linguagem de dois anos atrás" (ES, p. 192). Os que propugnam por
uma linguagem "culta", "clássica", "representam as
relações de produção mais atrasadas e reaccionárias da China. Sua existência é
absolutamente incompatível com os objetivos da revolução chinesa" (ES, p.
127).
O
método cooperativo apresenta grandes vantagens frente ao competitivo, de um
ponto de vista democrático, de justiça social. Em primeiro lugar, ele tem
legitimidade, pelo simples fato de nele todos se sentirem coniventes com o que
é público, comum, como a linguagem. Daí o sentirem-se corresponsáveis. Em
segundo lugar, a linguagem criada cooperativamente pelo povo no seu processo
histórico é a única que ele entende. Quem não a fala não se comunica com o
povo. Dos escritores, diz Mao, "se desejam ser compreendidos pelas massas,
se querem fazer bloco com elas, têm de decidir-se passar por um longo e penoso
processo de têmpera" (OE 4, p. 101). Quem quiser se fazer entender pelas
massas precisa conhecer sua linguagem viva e rica (OE 3, p. 101, não pode
abordar "as questões rurais partindo duma perspectiva urbana" (OE 3,
p. 291). Por fim, adotando "o ponto de vista de massas" (OE 3, p.
243), consegue-se uma maior unanimidade, evitam-se discriminações, todos passa
a ter acesso às informações. Em suma, consegue-se mais democracia em todos os
setores, e o linguístico não é o menos importante deles.
3.
Linguagem culta versus linguagem popular
Como
vimos, em determinada etapa do desenvolvimento histórico da língua, uma pessoa
ou um grupo de pessoas mais espertas começam a deter o registro das falas, das
narrativas, que ocorrem em sua comunidade. Acontece que logo logo essa
linguagem, de que são os únicos detentores, começa a se distanciar da linguagem
real do povo, uma vez que se cristaliza numa forma estática, rígida, ao passo
que a do povo continua evoluindo naturalmente, de acordo com a evolução da
sociedade. Concomitantemente a um monopólio do p0oder (econômico, político,
militar), a classe detentora da linguagem do passado passa a considerá-la como
a única correta. A linguagem do povo é "incorreta",
"deformada", cheia de solecismos e balelas que tais. Ou seja,
evolução passa a ser considerada como erro, desvio da linguagem boa, castiça da
época dos antigos. Aí está estabelecida a dualidade "linguagem culta"
versus "linguagem popular". Já foi mostrado que esta surge e
se desenvolve cooperativamente, pela coordenação geral das vontades
individuais. Todos participam, direta ou indiretamente, no seu surgimento.
Aquela (a "culta"), por seu turno, surge da luta pelo poder, da
competição, consequentemente, pela subordinação da vontade da maioria à de uma
pequena minoria, num processo diametralmente contrário ao propugnado por Mao
(OE 4, p. 582). Aí temos uma manifestação do "conflito principal"
(EF, p. 58) das relações de produção, que chega a ser um "conflito
antagônico" (EF, p. 77-80).
Mao
tem uma posição muito clara a respeito da dualidade "linguagem culta"
versus "linguagem popular". Se ele é do ponto de vista "de
que a minoria deve obedecer à maioria" (OE 4, p. 582), se ele adota
"o ponto de vista das massas" (OE 3, p. 287), se ele quer ser um
representante legítimo das massas (OE P. 3-4, 10, 405), é claro que sua opção é
decididamente pela "linguagem viva e rica das massas" (OE 3, p.
100-101), ou seja, pela linguagem popular. Esta se manifesta sobretudo
oralmente, ao passo que aquela tem sua expressão suprema na escrita. De modo
que "os homens ganhos às novas ideias combateram a língua escrita clássica
e preconizaram o estilo da língua falada, combateram os velhos dogmas e
preconizaram a ciência e a democracia. Tudo isso estava inteiramente
correcto" (OE 3, p. 68). Em outra passagem ele diz: "Há que aprender
a falar às massas, não na língua das fórmulas livrescas, mas na língua dos
combatentes da causa das massas, cujas palavras e ideias refletem, cada uma, os
pensamentos e sentimentos de milhões" (OE 3, p. 88). Como formula Sader
"Ele propugna a substituição da linguagem escrita elitista e esotérica pela
linguagem falada, como forma de popularizar a cultura" (Sader 1982: 10>
Será
que Mao era contra a linguagem culta, detentora do acervo cultural do passado
de maneira absoluta? Na da isso. É bem verdade que "as classes dominantes
educavam os estudantes na doutrina de Confúcio, obrigavam o povo a crer no
sistema confuciano como num dogma religioso e todos os escritos eram redigidos
na língua clássica" (OE 3, p. 68-69). Ou seja, a linguagem culta
(clássica, escrita) estava a serviço das classes dominantes, que eram uma
reduzida minoria. A grande maioria do povo chinês ficava marginalizada. Se no
Brasil, com um alfabeto de apenas 23 letras, já é tão difícil alfabetizar todo
o povo, que dizer da escrita chinesa com seus milhares de ideogramas? No
entanto, dado que todo o acervo cultural chinês está registrado nessa língua
escrita, não se pode ignorá-la, pois "é claro que existe uma literatura e
uma arte para os exploradores, para os opressores" (OE 3, p. 107). Isto é
um fato, não podemos negá-lo. Não levar as massas até ele é privá-las de um
instrumento de luta contra a opressão. Por um lado, 'a nossa literatura e a
nossa arte se dirigem essencialmente aos operários, camponeses e soldados"
(OE3, p. 144). Portanto devemos usar um "estilo de massas" (OE 3, p.
101), ou seja, um dos objetivos para Mao é "popularizar" a arte, a
literatura, enfim, a cultura (OE 3, p. 144). Por outro lato, ele acha que se
deve "elevar o nível" das massas. "Só podemos elevar o nível da
literatura e da arte partindo do nível dos próprios operários, camponeses e
soldados" (OE 3, p. 144). Só assim é possível fazer com que tenham acesso
ao acervo cultural que só a minoria dominante até o momento conhecia. Com
efeito, "o povo pede primeiro popularização e, depois, elevação do nível,
exigindo nível mais alto de mês a mês, de ano para ano" (OE 3, p. 119). Em
suma, "elevação do nível não parte do ar, ou de dentro de quatro paredes,
ela está concretamente baseada na popularização. É determinada pela
popularização e, simultaneamente, guia a popularização" (OE 3, p. 119).
Assumir
o ponto de vista das massas não significa "nivelar por baixo", como
sempre temem as forças reacionárias da sociedade, as forças opressoras do povo.
Pelo contrário, significa seguir o "princípio fundamental de servir as
massas populares" (OE 3, p. 120), e servi-las não é deixá-las onde estão,
na miséria e na ignorância da cultura cosmopolita porque "embora a vida
social dos homens seja a única fonte da literatura e da arte, e as ultrapasse
incomensuravelmente pela riqueza e vivacidade do seu conteúdo, o povo não se
contenta apenas com isso e quer literatura e arte. Por quê? Porque, embora
ambas sejam belas, a vida reflectida nas obras literárias e artísticas pode e
deve colocar-se num plano ainda mais alto, ser mais intensa, mais condensada,
mais típica, mais próxima do ideal e, por consequência, dum carácter mais
universal que a vida real de todos os dias" (OE 3, p. 117).
O
que ficou dito acima tem uma importância vital para uma pedagogia democrática.
Para ser professor das massas é necessário, antes, ser aluno delas (OE 3, p.
122). Ao se alfabetizarem os camponeses, por exemplo, não se deve violentá-los
de imediato com uma linguagem culta, clássica, ideográfica, que nada tem a ver
com sua cultura. Pelo contrário, eles devem ser iniciados na escrita através da
e na sua própria linguagem. Depois deste estágio inicial, eles próprios
sentirão necessidade de acesso à linguagem culta, de "elevação de
nível". Com isso se obedece o princípio dialético da evolução do simples
para o complexo, do fácil para o difícil, do inferior para o superior. Em
outras palavras, assim eles são levados a subir a escada do conhecimento
cosmopolita começando pelo primeiro degrau, e não forçando para que pulem
direto para o último. Em termos de Brasil, isso equivaleria a querer
alfabetizar alguém diretamente em espanhol, em vez de alfabetizá-lo em
português para só depois ensinar-lhe espanhol. Em toda sociedade composta de
classes antagônicas, esse é o caminho mais sensato a ser seguido pelos líderes
revolucionários. Do contrário cairiam no erro em que incorreram os soviéticos.
Em 1959 Mao disse que "os soviéticos só se interessam pelas relações de
produção. Ignoram a superestrutura, a po9lítica e o papel do povo" (OE, p.
194). Ou seja, em nome do povo, acabam dando ensejo ao surgimento de uma nomenklatura
arrogante que acaba ignorando o povo e sua linguagem.
Sumariando,
poderíamos dizer que a linguagem tida como culta é o resultado necessário da
subordinação histórica da maioria por uma minoria autocrática. A linguagem
popular, a linguagem real do povo é necessariamente o resultado de um trabalho
cooperativo de toda a população ao longo de sua história.
4.
Línguas minoritárias e variação regional
Pelo
simples fato de ter optado por aprender com as massas antes de se por a ensinar
a elas, por ser contra aqueles que "abordam as questões rurais partindo
duma perspectiva urbana" (OE 3, p. 291) e de ser contra a arrogância
quando se fala aos camponeses, já se pode antever uma posição favorável ao
respeito às minorias linguísticas e aos dialetos regionais. Seria extrema
incoerência se Mao apregoasse uma nivelação linguística de cima para baixo. Se
ha uma característica inconfundível nele é a coerência. Dentro de sua visão, as
línguas majoritárias não têm nenhum direito de esmagar as minoritárias. O
princípio "de que a minoria deve obedecer à maioria" (OE 4, p. 582)
não se aplica nesse caso, mas sim às relações de poder. Mao é radicalmente
contra a atitude de certos indivíduos "que tratam os quadros locais
desdenhosamente, zombam deles, dizendo: 'mas o que é que pode entender a gente
local, uns rústicos"' Isso prova que não têm a menor ideia sobre a importância dos quadros locais, não veem
os pontos fortes destes últimos nem os seus próprios pontos fracos,
adoptam uma atitude falsa, sectária. Todos os quadros vindos de fora devem
estimar os quadros locais e prestar-lhes ajuda constante, não lhes sendo
permitido ridicularizá-los ou golpeá-los" (OE 3, p. 57).
Em
um texto de 1956, Mao diz que "do ponto de vista democrático, os hans são
esmagadoramente majoritários, pois constituem 94% da população', mas que
"são as minorias nacionais que ocupam de 50 a 60% da superfície" da
China (ES, p. 179). No entanto, não é por causa disso, mas por uma questão de
coerência com os próprios princípios político-ideológicos que ele afirma que se
deve combater o chauvinismo de 'grande han'". Por outro lado, deve-se
combater também o "nacionalismo local" (ES, p. 178-179). Ou seja,
"a chave para a solução desse conflito (maioria demográfica X minorias
étnicas em grandes áreas) está na superação do chauvinismo de grande han
e do nacionalismo local" (EF, p. 122-123).
Se a maioria han não pode discriminar as minorias, por outro lado
estas não devem cultivar um "nacionalismo local" etnocêntrico, o que
só favoreceria os inimigos imperialistas. Por exemplo, "no Tibet, ainda
não se introduziu nenhuma reforma democrática porque as condições para isso
ainda não estão maduras" (EF, p. 123). Isto quer dizer simplesmente que se
deve respeitar a minoria chinesa constituída pelos tibetanos. As inovações só
devem ser introduzidas "quando a maioria do povo e das personalidades
tibetanas acharem que é oportuno" (EF,p. 123).
Em
1945, Mao se manifestou favoravelmente a respeito do Manifesto do I Congresso
Nacional do Kuomintang, redigido pelo Dr. Sun Yat-sen, que defende a
"libertação da nação chinesa pela própria nação chinesa e, segundo, a
igualdade de todas as nacionalidades da China" (OE 3, p. 404). E ainda:
"O Kuomintang declara solenemente que reconhece o direito de
autodeterminação a todas as nacionalidades da China e que será estabelecida uma
República da China livre e unificada (união livre de todas as
nacionalidades" (OE 3, p. 404).
A
passagem em que o respeito às minorias linguísticas é defendido mais
explicitamente é a seguinte: "A língua falada e escrita, os hábitos, os
costumes e as crenças religiosas dessas minorias devem ser respeitados"
(OE 3, p. 404). Par tanto aconselha que "os comunistas devem ajudar
activamente as grandes massas populares de todas as minorias nacionais a
lutar" pela "política do Dr. Sun em matéria de nacionalidades"
(OE3, p. 404). A ideia de respeito à diversidade estende-se até às línguas
estrangeiras. Segundo Mao, "é preciso assimilar das línguas estrangeiras
aquilo que necessitamos. Não devemos utilizar as expressões estrangeiras
mecanicamente, abusivamente, mas sim extrair das línguas estrangeiras o que é
bom e útil para nós. Como o velho vocabulário chinês é insuficiente, muitas das
palavras do nosso vocabulário actual são assimiladas das línguas estrangeiras.
Por exemplo, hoje estamos procedendo a uma reunião de campu (quadros),
ora, a palavra campu veio do estrangeiro. Há que assimilar ainda mais o
novo no estrangeiro, não somente ideias progressistas, também termos
novos" (OE 3, p. 79). Isto em 1942. Em 1956 ele voltou ao assunto,
lamentando que "os que aprendiam inglês deixaram de fazê-lo e que as teses
acadêmicas não são mais traduzidas para o inglês, francês, alemão ou japonês
para fins de intercâmbio. Este é outro preconceito" (ES, p. 188).
Sumariando,
par Mao não se pode tratar os falantes de dialetos regionais com arrogância nem
invadir com violência as minorias linguísticas. Ambos devem ser integrados na grande
China, unificados, mas espontaneamente, a fim de se defenderam contra o inimigo
externo. O chauvinismo é condenável em todos os sentidos. O mais importante é o
internacionalismo, o que faz com que até mesmo as línguas estrangeiras devam
ser levadas na devida conta, ou seja, na medida em que ajudam na construção do
progresso das massas, e não de uma pequena minoria.
5.
Diacronia: linguagem tradicional versus linguagem atual
'Os
homens fazem sua história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias
de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e
transmitidas pelo passado" (Marx 1978: 329). Só que o homem pode influir
na mudança das próprias circunstâncias, como está dito na terceira tese sobre
Feuerbach (Marx 1978: 51). Em suma, como diz Mao, "o povo, e só o povo,
constitui a força motriz na criação da história" (OE 3, p. 318). Portanto, é o próprio homem que
produz a linguagem, como vimos no item 2, que trata justamente da criação, da
gênese da linguagem. Ou seja, na sua luta diuturna pela sobrevivência, o homem
produz não só meios de subsistência, mercadorias, instrumentos, artefatos, mas
também linguagem. "Enquanto unidades da língua as palavras são produtos
saídos do trabalho linguístico. Tais produtos tornam-se materiais e
instrumentos no curso do trabalho linguístico posterior pelo qual se produzem
as mensagens" (Rossi-Landi 1975: 111). De modo que "o trabalho
linguístico e o não linguístico, cujos caracteres são frequentemente separados
arbitrariamente, se reduzem ao gênero ao qual pertencem na mesma
qualidade" (Rossi-Landi 1975: 112). O processo de produção (linguística e
não linguística) mais democrático é, como sempre enfatizaram Marx e Mao, entre
outros, o cooperativo, o que não quer dizer que o competitivo também não se
tenha sempre posto em prática, sobretudo nos regimes totalitários, injustos e
discriminadores.
É
claro que a linguagem produzida pelos nossos antepassados nos é transmitida.
"A tradição de todas as gerações mortas oprime o cérebro dos vivos como um
pesadelo" (Marx 1978: 328). Trata-se do aspecto acervo da linguagem,
daquilo que nossos antepassados nos legaram já feito, como sistema, e que
funciona como instrumento para continuarmos nos comunicando. Significa isso que
estamos presos à linguagem que nos foi transmitida, que não podemos
modificá-la? Basta lembrarmos que se a linguagem tem um lado produto (do
passado), tem também um lado instrumento, que é o próprio produto, visto de
outra ótica. Dito de outro modo, longe de ser uma camisa de força que nos
aprisiona, a linguagem transmitida do passado é um instrumento de produção de
novas mensagens, ou seja, a linguagem é dinâmica. Aliás, como entender que não
contribuímos para o acervo linguístico uma vez que continuamos interagindo,
produzindo linguística e não linguisticamente? Da interação entre os dois tipos
de produção, resulta um enriquecimento mútuo. Por um lado o acervo linguístico
é enriquecido de novos meios expressionais. Por outro lado, a língua favorece a
criação de novos produtos, de novos meios de consumo. Mas, infelizmente os
sicofantas da minoria detentora do poder nunca aceitam isso, ou melhor, tentam
separar as duas coisas e fazer crer que a única linguagem correta é aquela
antiquada de que são os únicos detentores, com a finalidade de oprimir a grande
maioria do povo. Eles não percebem que uma língua que não evoluísse não
serviria para falar das novas realidade com que o homem se defronta. Quem não
admite a evolução da linguagem se assemelha a alguém que ficasse apartado de sua
comunidade por longos anos, ou até mesmo por apenas "dois anos".
Quando se conversa com pessoas que passaram por isso, "são incapazes de
dar respostas sensatas. Elas ainda falam a linguagem de dois anos atrás"
(ES, p. 192). Tal é a dinamicidade da língua. Os que não desejam que os novos
instrumentos de comunicação produzidos pela geração atual passem a fazer parte
da linguagem coletiva assumem uma atitude subordinadora, competitiva, na luta
pelo poder. Eles recolheram um pouco da água do grande rio que é a língua em um
tanque (dicionário e gramática normativos) e passaram a ignorar a torrente que
continua a fluir no leito do rio. Para eles, apenas a água estancada, e
estagnada, de que passaram a ser os proprietários é boa, "correta".
Não percebem que ao longo do tempo sua aguinha tende a ficar choca, suja, e que
a água pura do rio continua a fluir naturalmente. Por isso, tanto o ensino
quanto os textos considerados bons passam a ser "quer no conteúdo quer na
forma, do gênero de clichê e dogma" (OE 3, p. 69).
Aqueles
que se aferram a uma linguagem antiquada perdem o pé da realidade, não falam a
linguagem da maioria, mas sim uma linguagem no "estilo de clichê", só
inteligível a uma minoria. "Não respondem às necessidades do proletariado, mas sim às das classes exploradoras" (OE
3, p. 72). É uma forma de esconder o conteúdo real, "que classifica as
coisas pelos aspectos externos, não pelos laços internos" (OE 3, p. 81),
numa "fraseologia interminável e fazia de sentido" (OE 3, p. 73),
"com ares afectados e pretensiosos destinados a intimidar as pessoas"
(OE 3, p. 74), o que constitui "desonestidade pura e simples" (OE 3,
p. 74). Isto porque "estão realmente decididos a não serem lidos nem
ouvidos por ninguém" (OE 3, p. 77), uma vez que visam esconder a verdade.
Pode ser até que fiquem gritando a transformação total no sentido dum estilo de
massas mas [são] incapaz[es] de dizer três frases na língua da gente
comum" (OE 3, p. 86).
A
língua atual, como é usada pelo povo, é um produto do passado, é um aspecto do
acervo cultural do passado, é uma realidade que "não deve ser rejeitada
totalmente, nem copiada cegamente, havendo que aceitá-la com discernimento, de
modo que ajude o professor da cultura da nova era" (OE 3, p. 403). Em
diversas passagens de suas obras, Mao cita provérbios chineses antigos, frases
de Confúcio, mas par que sirvam de instrumento para enfrentar as novas
realidades a fim de não se inventar a roda a cada geração. Só não podemos
deixar que a "opressão" das gerações passadas, de que nos fala Marx,
nos massacre, como bem gostariam que acontecesse os burgueses, os privilegiados
do poder.
Mao
chega a recomendar explicitamente o estudo da história, tanto a da China quanto
a universal 9OE 3, p. 14). No entanto, recomenda também uma adequação da forma
antiga, já provada em outras circunstâncias, ao conteúdo novo, revolucionário
(OE 3, p. 11, 42). Em síntese, para uma perspectiva maoísta, que está bem
dentro da ótica mais ampla do marxismo, a língua é de fato um produto do
passado. No entanto, como qualquer produto pode e deve funcionar também como
instrumento para produzir novas mensagens sob novas condições. Desta produção
surgirão, necessariamente, novos produtos que serão instrumentos novos p0ara as
gerações futuras. A linguagem é como a vida do homem social, está em constante
evolução.
6.
A produção de textos
Sempre
que alguém envia uma mensagem a outrem, tanto por escrito quanto oralmente,
produz um texto. Este é, portanto, o produto mesmo da atividade comunicacional
concreta. É nele que se manifesta a linguagem com todas as suas contradições.
Assim sendo, ele não podia ficar fora das preocupações de Mao Tsetung. É
legítimo até mesmo dizer que foi ao texto que ele dedicou a maior parte de suas
reflexões sobre o fenômeno linguagem. A tal ponto que dedicou pelo menos quatro
escritos, total ou parcialmente, ao assunto. O primeiro deles (OE 3, p. 67-93)
se intitula "Contra o estilo de cliché do partido" (de 8/2/1942) e
trata exclusivamente do assunto produção de texto. O segundo (OE 3, p. 95-146),
"Intervenções nos Colóquios de Ien-an sobre literatura e arte" (maio
de 1942), trata da produção literária, mas também da produção artística em
geral. O terceiro (OE 4, p. 365-372), "Palestra aos redactores do Diário
de Xansi-Sun-Iuan (2/4/48), trata da questão da produção do texto
jornalístico, ao qual Mao dedicava uma atenção toda especial devido ao grande
número de pessoas que o jornal atinge. O quarto (OE 4, p. 267-271), "Sobre
a instituição do sistema de relatórios" (7/1/1948), apresenta conselhos para
a elaboração de relatórios enxutos, sem palavrório desnecessário e inútil. Além
desses quatro textos, há várias observações esparsas ao longo de toda a obra.
Como
não poderia deixar de ser, a posição de Mao com relação ao texto decorre de sua
"linha de massas" (OE 4, p. 366), de seu "estilo de massas"
(OE 3, p. 101). A melhor maneira de se comunicar com as massas é através de slogan,
ou seja, através de frases curtas, sem termos rebuscados, de comunicação
direta. Os textos destinados às massas, tanto escritos quanto orais,
"devem se vivos, claros, e incisivos e jamais devem falar entre
dentes" (OE 4, p. 372). A concisão é, portanto, uma das primeiras
característica de um texto que pretenda atingir as massas. Em diversas
oportunidades Mao condena o "entregar-se a fraseologia interminável e
vazia de sentido" e concita todos a que aprendam "a escrever artigos
curtos e substanciosa" (OE e, p. 73; EF, p. 151). No escrito de 1942
mencionado acima ele subscreve e transcreve algumas da oito regras formuladas
por Lu Sun. A quarta elas diz o seguinte: "Depois de se ter escrito algo,
ler pelo menos duas vezes o que se escreveu e fazer o máximo por cortar sem
perdão as palavras, frases e parágrafos não indispensáveis. Mais vale condensar
a matéria dum romance num conto que alongar a matéria dum conto por todo um
romance" (OE 3, p. 90). Em 1948, Mao diz em seu estilo incisivo:
"Cada relatório deverá reduzir-se a cerca de mil palavras e, excepto em
casos especiais, não poderá ultrapassar duas mil palavras". "O relatório
geral deve limitar-se ao essencial e ser de estilo conciso; sublinhando os
problemas ou os pontos em discussão" (OE 4, p. 268). Em síntese,
"tudo deve ser claro e conciso" (OE 4, p. 587).
A
segunda característica que Mao exige de um texto é a acessibilidade, a simplicidade,
ou seja, ausência de formalismo vazio, de forma pela forma, adequação da forma
e do conteúdo. Quem escreve ou fala às massas deve usar uma linguagem
acessível, sem termos rebuscados, arcaicos ou especiosos, "doutro modo
estão realmente decididos a não serem lidos nem ouvidos por ninguém" (OE
3, p. 77). A última regra (a sexta) de Lu Sun que ele transcreve diz o
seguinte: "Não fabricar adjetivos ou outros termos incompreensíveis para
todos exceptuando o próprio autor" (OE 3, p. 90). Quem o fizer estará
cometendo um grande erro, e "as suas obras são insípidas, cheias de
expressões fabricadas, nem carne nem peixe, a cem léguas da distância da
linguagem popular" (OE 3, p. 101).
Mao
condena enfática e ironicamente o formalismo. É o que ele chama "estilo de
cliché" (OE 3, p. 67-93). Ele chega a considerar este estilo como um crime
(Mao alinha sete "crimes" aí). O "quarto crime" consiste em
"alinhar os pontos a tratar segundo uma ordem de cabeçalhos como nas
farmácias tradicionais chinesas" (OE 3, p. 80). É o que ele chama
ironicamente de "método da farmácia chinesa" ou "método do
formalista que classifica as coisa pelos aspectos externos, e não pelos laços
internos" (OE 3, p. 81). Mas, "o estilo de cliché do partido não se
limita apenas aos artigos e discursos, revela-se também na maneira como se
conduzem as nossas reuniões: 1. abertura; 2. relatório; 3. discussão; 4.
conclusões; 5. encerramento" (OE 3, p. 84). "Os 'relatórios'
apresentados nas reuniões contêm frequentemente tais pontos: 1. situação
internacional; 2. Situação interna; 3. Situação na região fronteiriça; 4.
Situação na nossa secção de trabalho" (OE 3, p. 85). Isso é um
"proceder mecânico" (OE 3, p. 84). Um estilo assim revela
"subjetivismo" e "sectarismo", que são "antimarxistas;
não respondem às necessidades do proletariado, mas sim às das classes
exploradoras. São um reflexo da ideologia pequeno-burguesa" (OE 3, p. 72),
e quem os pratica toma "ares afectados e pretensiosos destinados a
intimidar as pessoas" (OE 3, p. 74). "A verdade não tem que recorrer
à pose da intimidação; impõe-se por palavras e actos sinceros" (OE 3, p.
75).
A
forma deve adequar-se ao conteúdo, não o contrário. "A característica
comum da literatura e arte de todas as classes exploradoras, na fase de
decadência é a contradição entre o conteúdo político reaccionário e a forma
artística das obras. O que nós exigimos é unidade da política e da arte,
unidade de conteúdo e forma, a unidade dum conteúdo político revolucionário com
a forma artística mais perfeita possível" (OE 3, p. 131). "Separar o
conteúdo internacionalista da forma nacional é prática dos que não compreendem
coisa alguma sobre internacionalismo" (OE 3, p. 91). O formalismo está em
oposição frontal a um princípio elementar do marxismo que consiste em "ligação
entre teoria e prática" (OE 3, p. 42). Em 1942, Mao ainda dizia: "a
nossa frente teórica está longe de encontrar-se em harmonia com a riqueza de
conteúdo do movimento revolucionário chinês" (OE 3, p. 42).
Inadequação
de forma e conteúdo, forma pela forma (formalismo) e estilo complicado, tudo
isso tem um endereço certo, ou seja, usar "palavras bonitas" (OE 4,
p. 164), "grandes palavras vazias de conteúdo" (OE 3, p. 395),
típicas da "dissertação em oito partes", que era "destituída de
qualquer conteúdo, jogava com as palavras e apenas se preocupava com a forma.
Cada uma das partes estava limitada a regras imutáveis e, inclusivamente, a um
número determinado de caracteres; assim, para a composição, não havia mais que
conformar-se mecanicamente às fórmulas requeridas para um ou outro assunto
determinado" (OE 3, p. 35, 72). Em suma, trata-se da retórica oca de que
se servem as minorias privilegiadas que oprimem o povo na prática, mantendo-o
na miséria, mas lhe dizendo em "palavras bonitas" que tudo vai bem.
Qualquer semelhança com o Brasil atual e dos últimos vinte anos não é mera
coincidência.
O
que falta em discursos como esses é pura e simplesmente verdade, sinceridade e
honestidade. Para Mao, "de um modo geral é verdadeiro o que traz êxito, e
falso o que traz derrota" (EF, p. 150). Êxito para ele significa vitória
definitiva das grandes massas sobre a minoria (interna e externa) que as
oprimem. Com efeito, não existe uma verdade eterna e imutável; pelo contrário,
ela é histórica, o que é verdadeiro numa época poderá não sê-lo em outra e
vice-versa" (OE 3, p. 6-7). "Todo conhecimento legítimo provém da
experiência imediata" (EF 9), ou seja, "da práxis social" que
compreende "a luta pela produção", "luta de classes" e "a
experimentação científica" (EF, p. 149). Afinal, "só há uma teoria
verdadeira: a que é tirada da realidade objectiva e confirmada por essa mesma
realidade; nada mais é digno do nome de teoria, no sentido em que a entendemos.
Estáline disse que a teoria perde o seu objecto quando se desliga da prática. A
teoria que não tem objeto é inútil, é falsa e deve ser rejeitada" (OE 3,
p. 48). "Por outro lado, os camaradas que se empenham em trabalhos
práticos sofrerão reveses se fizerem mau uso da sua experiência..... Eles
precisam de compreender que os seus conhecimentos são principalmente de grau
sensível, parciais, faltando-lhes conhecimentos racionais, generalizados;
noutros termos, falta-lhes teoria" (OE 3, p. 49). Mas, os textos não devem
ser um reflexo mecânico da realidade, meras descrições frias e descompromissadas.
Pelo contrário, eles devem estar engajados na justa luta do povo contra a
opressão, "a vida refletida nas obras literárias e artísticas pode e deve
colocar-se num plano ainda mais alto, ser mais intensa, mas condensada, mais
típica, mais próxima do ideal e, por consequência, dum caráter mais universal
que a vida real de todos os dias" (OE 3, p. 117). "Seja em que
momento for, um comunista deve estar pronto a persistir na verdade, pois a
verdade concorda sempre com os interesses do povo" (OE 3, p. 420-421).
"Palavras
no papel não são o mesmo que a realidade" (OE 4, p. 64). Quando um
porta-voz de um regime tirano vem a público com belas palavras, mas
"vazias de conteúdo" (OE 3, p. 395) está, pura e simplesmente,
mentindo, "pois tais palavras no papel estão em contradição com a
realidade" (OE 4, p. 64). No caso, tratava-se do Acorde de Dez de Outubro
do PC da China com o Kuomintang. "Embora escrita no Acordo, a paz ainda
não é uma realidade" (OE 4, p. 64). Os textos não podem se hipócritas,
mascarando a realidade. Lutar para modificá-la, sim, mas não embelezá-la,
falseá-la, como faz a ideologia reaccionária com o fito de enganar o povo e não
perder os privilégios do poder.
Só
pode dizer a verdade quem é sincero, quem não se limita a falar sobre a realidade,
mas põe em prática o que diz (OE 3, p. 389). É preciso não desvincular a teoria
da prática (OE 3, p. 16). Por isso, "o critério supremo para julgar as
palavras e actos dum comunista está em saber se se conformam com os mais altos
interesses da esmagadora maioria do povo e se beneficiam do apoio dessa
maioria" (OE 3, p. 4220. Um discurso sincero é aquele de quem poderia
dizer: "façam o que eu digo porque eu digo o que faço". Para Mao,
"nunca devemos fingir que conhecemos aquilo que não conhecemos" (OE
4, p. 583). Quem é sincero, humilde, sem arrogância e alia sua teoria à sua
prática, tem um discurso transparente, que não teme a verdade, e "uma vez
que as massas saibam a verdade e tenham um objectivo comum, elas trabalharão
como um só homem" (OE 4, p. 365). Por outras palavras, quando o povo nota
sinceridade em quem fala, acredita nele e o apoia.
Aqueles
que dizem uma coisa e fazem outra, que torcem a verdade, que não são sinceros
são, com todas as letras, desonestos. Com estes "devemos ser severos"
(ES, p. 191). O povo não os perdoa, pelo menos a longo prazo. Portanto, é
melhor ser sincero, honesto, dizer sempre a verdade. Afinal, "aquilo que é
científico nunca receia a crítica, pois a ciência é verdade, de modo nenhum
teme a refutação". Quem diz a verdade, é sincero e honesto não precisa
"tomar ares pretensiosos para intimidar as pessoas" porque "a
verdade não tem que recorrer à pose da intimidação; impõe-se por palavras e
actos sinceros" (OE 3, p. 75).
7.
Observações finais
Já
vimos que Ao era um homem pragmático, voltado durante toda sua vida para a
atividade de transformação da situação injusta reinante em seu país. Até mesmo
o conhecimento que ele praticou, seus escritos teóricos, estão voltados para a
prática, não se desvinculam das questões práticas. Para ele, "se você
quiser adquirir conhecimento precisa participar da práxis transformadora da
realidade" (EF, p. 9), pois "todo conhecimento legítimo provém da
experiência imediata" (EF, p. 9). A práxis social para ele compreende,
como já vimos, "a luta pela produção, a luta de classes e a experimentação
científica" (EF, p. 149).
Como
homem de ação, voltado para o interesse das massas, defendia veementemente o
uso de uma linguagem acessível às massas, embora não descartasse a elevação do
nível intelectual delas. Por linguagem acessível ele queria dizer não apenas
evitar a "língua escrita clássica" (OE 3, p. 68) e os ideogramas
arcaicos, típicos de "velhos letrados" (OE 3, p. 77), mas também usar
"estilo conciso" (OE 4, p. 268), textos cursos (OE 4, 268); OE 3,
90), períodos curtos, sem muitas orações subordinadas, intercaladas, se sempre
na forma mais direta possível.
Ao
lado de todas essas recomendações, Mao defendia também veracidade, sinceridade
e honestidade. Pois bem, ninguém mais do que ele tinha moral para falar disso,
ninguém mais do que ele praticou tudo isso no decorrer de toda sua intensa
atividade d produção de textos. Todos os textos que compõem sua vasta obra são
curtos, concisos, compostos de períodos curtos, sem muitas subordinadas e intercaladas.
Sempre se referem a uma situação concreta. Todos eles são de uma coerência a
toda prova. Até mesmo os textos filosóficos sempre dão exemplos práticos,
tirados da atividade revolucionária. Seus textos apresentam uma média de
aproximadamente dez páginas cada um, se tanto. Contrariamente a Marx, Engles e
até Lenin, que às vezes eram bastante prolixos, Mao sempre deu seu recado de
maneira concisa e sucinta, sem muita citação de clássicos, típica desses três
pensadores, mais os dois primeiros do que o terceiro. A Mao se aplica com muito
mais justiça o que Fromm disse de Marx: "ele era o que pensava"
(Fromm 1970: 81). Ou melhor ainda, Mao era o que dizia, dizia o que pensava e
pensava o que fazia.
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