sábado, 28 de junho de 2014

A questão da linguagem em Mao Tse Tung

1. Observações preliminares
Falar sobre a questão da linguagem em Mao Tsetung é tarefa extremamente difícil. Com efeito, ele não deixou nenhum escrito que tratasse especificamente sobre ela. Do que temos disponível em línguas ocidentais, eu consultei as Obras escolhidas, em quatro volumes (doravante OE 1, 2, 3, 4), disponíveis em inglês, francês, espanhol e português; Quatro ensaios filosóficos (doravante EF), em inglês, francês, espanhol e alemão): Escritos militares (EM), em português, francês, inglês e espanhol. Além desses, consultei também Filosofia de Mao Tsetung, da editora Boitempo, de Belém (PA), de 1978, que contém quatro ensaios, sendo que todos aparecem nas obras anteriormente mencionadas. Pois bem, em nenhuma dessas publicações encontrei algum ensaio dedicado especificamente à questão da linguagem. Diante disso, o que me restou foi respigar aqui e ali em sua imensa obra as passagens em que Mao a menciona. Além disso, fiz uso do recurso de transpor o que ele disse a propósito de outros fenômenos culturais para o âmbito da linguagem. Com isso, podemos integrar ideias deixadas por ele dispersas num todo razoavelmente coerente.
Mao era um homem da ação, da prática. No entanto, era também um marxista convicto. Assim sendo, não poderia menosprezar a teoria. Tanto que deixou uma valiosa contribuição para o pensamento e a filosofia marxista (cf. EF e Sader 1982, entre outros). Além do mais, ele era radical, no sentido marxiano da palavra. Da combinação desse espírito prático e radical com um desejo muito grande de erradicar as injustiças sociais que grassavam em seu país resultou um líder revolucionário. Seu objetivo principal era, portanto, tirar o povo chinês da miséria, livrá-lo da exploração capitalista e imperialista.
Se seu objetivo era erradicar injustiças sociais, deveria voltar-se para uma política de massas. É o que ele efetivamente fez. Numa primeira fase da revolução chinesa, ele se dedicava sobretudo aos camponeses, pois eram dos mais explorados. Mais tarde, sobretudo com o início da revolução cultural, ele passou a enfatizar a juventude, uma vez que ela não tem nenhum compromisso com as distorções do passado. Foi a época dos temíveis guardas-vermelhos. Houve muitos excessos, mas se não tivesse passado por esse processo, hoje a China seria apenas mais um fundo de quintal do imperialismo das multinacionais, com uma minoria privilegiada de um lado e uma imensa maioria do povo na miséria absoluta.
No período que vai de 1920 a 1945, Mao teve que lutar contra dois inimigos, um externo e outro interno. O inimigo externo era o invasor fascista japonês. O interno era o partido do Kuomintang, comandado por Tchiang Kai-Chek que, posteriormente, formaria um governo fantoche do imperialismo norte-americano em Formosa (Taiwan). Diante dessa situação, nada mais natural que seus escritos fossem em geral de conclamação do povo para a defesa do país contra os dois inimigos, ordens aos comandados, diretrizes para os líderes locais, avaliações da situação etc. Num texto de 1944, Mao estabeleceu as prioridades pra os chineses da época: "No nosso trabalho, a guerra vem em primeiro lugar, depois vem a produção e depois a cultura" (OE 3, p. 285). Não obstante, em sua atividade prática de líder revolucionário a linguagem, em seu sentido mais amplo, desempenhava um papel de suma importância. Ele tinha que se comunicar com as massas, com líderes regionais sem muita instrução, com estudantes etc. Dessa prática de interação política com as grandes massas surgiu uma concepção da linguagem facilmente perceptível.

2. Cooperação versus competição.
Sabemos que qualquer comunidade, qualquer agrupamento de pessoas só existe e subsiste como tal se tiver um conjunto de regras que oriente o comportamento individual. Do contrário, prevalece a lei do mais forte, do mais esperto, do mais inescrupuloso, como era o caso na China pré-revolucionária. Esse conjunto de regras não é nada mais nada  menos que linguagem, no sentido mais amplo da palavra. Como é criada essa linguagem? O agente da história é o próprio homem. A linguagem está incluída na história, ou seja, a linguagem é criada pelo próprio homem.
Em princípio, há duas maneiras de se elaborar o conjunto de regras que orientam o comportamento coletivo e o individual (Couto 1987: 69-71). A primeira delas consiste na coordenação da vontade coletiva. As regras são estabelecidas de baixo para cima. Todos os interessados participam de sua elaboração. O método usado é, por conseguinte, o cooperativo, que é o único democrático. É ele que foi praticado, embora inconscientemente (cf. Marx 1978: 329), no surgimento das línguas históricas. Na luta pela sobrevivência, as pessoas tinham que interagir. Dessa interação foi surgindo um conjunto de regras, um instrumento para o entendimento mútuo, ou seja, a língua, sem que o percebessem. Como não poderia deixar de ser, essa língua foi evoluindo pari passu com a comunidade que a usava.
A segunda maneira de surgimento das regras do jogo (da linguagem, da língua, no caso) é através da subordinação da vontade da maioria à de uma minoria ou até mesmo à de uma única pessoa. Ou seja, em vez de se proceder cooperativamente, o método usado é o competitivo. Aí surgem os espertalhões que, por um acidente histórico qualquer, dispõem de registros (orais ou escritos ou da língua de épocas anteriores. Como são os únicos detentores dela, passam a considerá-la como a única correta e a impô-la à coletividade. A língua viva, concreta, usada pelo povo passa a ser tachada de errada por eles, e o povo passa a ser considerado ignorante, sem instrução, sem conhecimento da linguagem castiça dos antigos. Isso é válido para qualquer comunidade em que imperam relações de produção competitivas, de privilégios, mesmo que os detentores do poder se considerem socialistas. Na época atual, tais espertalhões são os gramáticos, muitos filólogos, os planejadores do ensino e todo o aparelho ideológico escolar.
Como já se pode antever diante do exposto acima, Mao Tsetung é decididamente pelo método cooperativo, pois para ele "o povo, e só o povo, constitui a força motriz na criação da história universal" (OE 3, p. 318). No caso especificamente chinês, diz ele que "a nossa cultura é uma cultura do povo" (OE3, p. 287). Por outras palavras, ele adota "o ponto de vista de massas" (OE3, p. 243), que "têm latente uma enorme força criadora" (OE 3, p. 242). Entendendo estabelecimento da linguagem cooperativamente como unificação, pergunta ele: "Como se deve unificar a China? Unificação autocrática, feita por um ditador, ou unificação democrática, realizada pelo povo?" (OE3, p. 383).
Para um seguidor da teoria do conhecimento marxista, como Ao, "toda a direção correta é necessariamente 'das massas para as massas'. Isso significa escolher ideias das massas (ideias dispersas, não sistemáticas), concentrá-las (transformá-las por meio do estudo em ideias sintetizadas e sistematizadas), ir de novo às massas para propagá-las e explicá-las de maneira que as massas as tomem como suas, persistam nelas e as traduzam em cação; e ainda verificar a justeza dessas ideias no decorrer da própria ação das massas. Depois é preciso voltar a concentrar as ideias das massas e levá-las outra vez às massas, para que estas persistam nelas e as apliquem firmemente. Sucessivamente, repetindo-se infinitamente esse processo, as ideias vão-se tornando cada vez mais correctas, mais vivas e mais ricas" (OE3, P. 179). Só assim os dirigentes, os líderes falarão a mesma linguagem do povo, marcando "na mesma cadência" (OE 4, p. 582) que ele. É necessário que os representantes do povo se convençam "de que a minoria deve obedecer à maioria" (OE 4, p. 582). Os líderes têm de se convencer de que "só quando se é o representante das massas se pode educar as massas, e só quando se é aluno delas se pode chegar a ser para elas um professor" (OE 3, p. 122). Ninguém conferiu poderes ao filólogo e ao gramático para dizer que a língua usada pelo povo é errada e que só a sua linguagem antiquada é correta.
Contrariamente ao que fazem os legítimos representantes do povo (OE 3, 120-122, 405), que propugnam por uma linguagem comprometida com o povo, estabelecida pela cooperação de todos os interessados, os filólogos, os gramáticos e o aparelho ideológico de estado constituem, na China, "a camarilha reaccionária que representa o sector dos grandes senhores de terras, grandes banqueiros e grandes compradores" (OE 3, p. 344). Eles não aceitam o fato de que a linguagem é dinâmica, de que ela está em constante evolução, tal qual a comunidade em que é usada. Não percebem, ou querem aceitar, que a linguagem evolui tanto que as pessoas que "estiverem presas durante dois anos, em 'currai' não sabem mais o que está acontecendo no mundo. Quando são libertadas e alguém conversa com elas, são incapazes de dar respostas sensatas. Elas ainda falam a linguagem de dois anos atrás" (ES, p. 192). Os que propugnam por uma linguagem "culta", "clássica", "representam as relações de produção mais atrasadas e reaccionárias da China. Sua existência é absolutamente incompatível com os objetivos da revolução chinesa" (ES, p. 127).
O método cooperativo apresenta grandes vantagens frente ao competitivo, de um ponto de vista democrático, de justiça social. Em primeiro lugar, ele tem legitimidade, pelo simples fato de nele todos se sentirem coniventes com o que é público, comum, como a linguagem. Daí o sentirem-se corresponsáveis. Em segundo lugar, a linguagem criada cooperativamente pelo povo no seu processo histórico é a única que ele entende. Quem não a fala não se comunica com o povo. Dos escritores, diz Mao, "se desejam ser compreendidos pelas massas, se querem fazer bloco com elas, têm de decidir-se passar por um longo e penoso processo de têmpera" (OE 4, p. 101). Quem quiser se fazer entender pelas massas precisa conhecer sua linguagem viva e rica (OE 3, p. 101, não pode abordar "as questões rurais partindo duma perspectiva urbana" (OE 3, p. 291). Por fim, adotando "o ponto de vista de massas" (OE 3, p. 243), consegue-se uma maior unanimidade, evitam-se discriminações, todos passa a ter acesso às informações. Em suma, consegue-se mais democracia em todos os setores, e o linguístico não é o menos importante deles.

3. Linguagem culta versus linguagem popular
Como vimos, em determinada etapa do desenvolvimento histórico da língua, uma pessoa ou um grupo de pessoas mais espertas começam a deter o registro das falas, das narrativas, que ocorrem em sua comunidade. Acontece que logo logo essa linguagem, de que são os únicos detentores, começa a se distanciar da linguagem real do povo, uma vez que se cristaliza numa forma estática, rígida, ao passo que a do povo continua evoluindo naturalmente, de acordo com a evolução da sociedade. Concomitantemente a um monopólio do p0oder (econômico, político, militar), a classe detentora da linguagem do passado passa a considerá-la como a única correta. A linguagem do povo é "incorreta", "deformada", cheia de solecismos e balelas que tais. Ou seja, evolução passa a ser considerada como erro, desvio da linguagem boa, castiça da época dos antigos. Aí está estabelecida a dualidade "linguagem culta" versus "linguagem popular". Já foi mostrado que esta surge e se desenvolve cooperativamente, pela coordenação geral das vontades individuais. Todos participam, direta ou indiretamente, no seu surgimento. Aquela (a "culta"), por seu turno, surge da luta pelo poder, da competição, consequentemente, pela subordinação da vontade da maioria à de uma pequena minoria, num processo diametralmente contrário ao propugnado por Mao (OE 4, p. 582). Aí temos uma manifestação do "conflito principal" (EF, p. 58) das relações de produção, que chega a ser um "conflito antagônico" (EF, p. 77-80).
Mao tem uma posição muito clara a respeito da dualidade "linguagem culta" versus "linguagem popular". Se ele é do ponto de vista "de que a minoria deve obedecer à maioria" (OE 4, p. 582), se ele adota "o ponto de vista das massas" (OE 3, p. 287), se ele quer ser um representante legítimo das massas (OE P. 3-4, 10, 405), é claro que sua opção é decididamente pela "linguagem viva e rica das massas" (OE 3, p. 100-101), ou seja, pela linguagem popular. Esta se manifesta sobretudo oralmente, ao passo que aquela tem sua expressão suprema na escrita. De modo que "os homens ganhos às novas ideias combateram a língua escrita clássica e preconizaram o estilo da língua falada, combateram os velhos dogmas e preconizaram a ciência e a democracia. Tudo isso estava inteiramente correcto" (OE 3, p. 68). Em outra passagem ele diz: "Há que aprender a falar às massas, não na língua das fórmulas livrescas, mas na língua dos combatentes da causa das massas, cujas palavras e ideias refletem, cada uma, os pensamentos e sentimentos de milhões" (OE 3, p. 88). Como formula Sader "Ele propugna a substituição da linguagem escrita elitista e esotérica pela linguagem falada, como forma de popularizar a cultura" (Sader 1982: 10>
Será que Mao era contra a linguagem culta, detentora do acervo cultural do passado de maneira absoluta? Na da isso. É bem verdade que "as classes dominantes educavam os estudantes na doutrina de Confúcio, obrigavam o povo a crer no sistema confuciano como num dogma religioso e todos os escritos eram redigidos na língua clássica" (OE 3, p. 68-69). Ou seja, a linguagem culta (clássica, escrita) estava a serviço das classes dominantes, que eram uma reduzida minoria. A grande maioria do povo chinês ficava marginalizada. Se no Brasil, com um alfabeto de apenas 23 letras, já é tão difícil alfabetizar todo o povo, que dizer da escrita chinesa com seus milhares de ideogramas? No entanto, dado que todo o acervo cultural chinês está registrado nessa língua escrita, não se pode ignorá-la, pois "é claro que existe uma literatura e uma arte para os exploradores, para os opressores" (OE 3, p. 107). Isto é um fato, não podemos negá-lo. Não levar as massas até ele é privá-las de um instrumento de luta contra a opressão. Por um lado, 'a nossa literatura e a nossa arte se dirigem essencialmente aos operários, camponeses e soldados" (OE3, p. 144). Portanto devemos usar um "estilo de massas" (OE 3, p. 101), ou seja, um dos objetivos para Mao é "popularizar" a arte, a literatura, enfim, a cultura (OE 3, p. 144). Por outro lato, ele acha que se deve "elevar o nível" das massas. "Só podemos elevar o nível da literatura e da arte partindo do nível dos próprios operários, camponeses e soldados" (OE 3, p. 144). Só assim é possível fazer com que tenham acesso ao acervo cultural que só a minoria dominante até o momento conhecia. Com efeito, "o povo pede primeiro popularização e, depois, elevação do nível, exigindo nível mais alto de mês a mês, de ano para ano" (OE 3, p. 119). Em suma, "elevação do nível não parte do ar, ou de dentro de quatro paredes, ela está concretamente baseada na popularização. É determinada pela popularização e, simultaneamente, guia a popularização" (OE 3, p. 119).
Assumir o ponto de vista das massas não significa "nivelar por baixo", como sempre temem as forças reacionárias da sociedade, as forças opressoras do povo. Pelo contrário, significa seguir o "princípio fundamental de servir as massas populares" (OE 3, p. 120), e servi-las não é deixá-las onde estão, na miséria e na ignorância da cultura cosmopolita porque "embora a vida social dos homens seja a única fonte da literatura e da arte, e as ultrapasse incomensuravelmente pela riqueza e vivacidade do seu conteúdo, o povo não se contenta apenas com isso e quer literatura e arte. Por quê? Porque, embora ambas sejam belas, a vida reflectida nas obras literárias e artísticas pode e deve colocar-se num plano ainda mais alto, ser mais intensa, mais condensada, mais típica, mais próxima do ideal e, por consequência, dum carácter mais universal que a vida real de todos os dias" (OE 3, p. 117).
O que ficou dito acima tem uma importância vital para uma pedagogia democrática. Para ser professor das massas é necessário, antes, ser aluno delas (OE 3, p. 122). Ao se alfabetizarem os camponeses, por exemplo, não se deve violentá-los de imediato com uma linguagem culta, clássica, ideográfica, que nada tem a ver com sua cultura. Pelo contrário, eles devem ser iniciados na escrita através da e na sua própria linguagem. Depois deste estágio inicial, eles próprios sentirão necessidade de acesso à linguagem culta, de "elevação de nível". Com isso se obedece o princípio dialético da evolução do simples para o complexo, do fácil para o difícil, do inferior para o superior. Em outras palavras, assim eles são levados a subir a escada do conhecimento cosmopolita começando pelo primeiro degrau, e não forçando para que pulem direto para o último. Em termos de Brasil, isso equivaleria a querer alfabetizar alguém diretamente em espanhol, em vez de alfabetizá-lo em português para só depois ensinar-lhe espanhol. Em toda sociedade composta de classes antagônicas, esse é o caminho mais sensato a ser seguido pelos líderes revolucionários. Do contrário cairiam no erro em que incorreram os soviéticos. Em 1959 Mao disse que "os soviéticos só se interessam pelas relações de produção. Ignoram a superestrutura, a po9lítica e o papel do povo" (OE, p. 194). Ou seja, em nome do povo, acabam dando ensejo ao surgimento de uma nomenklatura arrogante que acaba ignorando o povo e sua linguagem.
Sumariando, poderíamos dizer que a linguagem tida como culta é o resultado necessário da subordinação histórica da maioria por uma minoria autocrática. A linguagem popular, a linguagem real do povo é necessariamente o resultado de um trabalho cooperativo de toda a população ao longo de sua história.

4. Línguas minoritárias e variação regional
Pelo simples fato de ter optado por aprender com as massas antes de se por a ensinar a elas, por ser contra aqueles que "abordam as questões rurais partindo duma perspectiva urbana" (OE 3, p. 291) e de ser contra a arrogância quando se fala aos camponeses, já se pode antever uma posição favorável ao respeito às minorias linguísticas e aos dialetos regionais. Seria extrema incoerência se Mao apregoasse uma nivelação linguística de cima para baixo. Se ha uma característica inconfundível nele é a coerência. Dentro de sua visão, as línguas majoritárias não têm nenhum direito de esmagar as minoritárias. O princípio "de que a minoria deve obedecer à maioria" (OE 4, p. 582) não se aplica nesse caso, mas sim às relações de poder. Mao é radicalmente contra a atitude de certos indivíduos "que tratam os quadros locais desdenhosamente, zombam deles, dizendo: 'mas o que é que pode entender a gente local, uns rústicos"' Isso prova que não têm a menor ideia sobre a  importância dos quadros locais, não veem os  pontos fortes destes  últimos nem os seus próprios pontos fracos, adoptam uma atitude falsa, sectária. Todos os quadros vindos de fora devem estimar os quadros locais e prestar-lhes ajuda constante, não lhes sendo permitido ridicularizá-los ou golpeá-los" (OE 3, p. 57).
Em um texto de 1956, Mao diz que "do ponto de vista democrático, os hans são esmagadoramente majoritários, pois constituem 94% da população', mas que "são as minorias nacionais que ocupam de 50 a 60% da superfície" da China (ES, p. 179). No entanto, não é por causa disso, mas por uma questão de coerência com os próprios princípios político-ideológicos que ele afirma que se deve combater o chauvinismo de 'grande han'". Por outro lado, deve-se combater também o "nacionalismo local" (ES, p. 178-179). Ou seja, "a chave para a solução desse conflito (maioria demográfica X minorias étnicas em grandes áreas) está na superação do chauvinismo de grande han e do nacionalismo local" (EF, p. 122-123).  Se a maioria han não pode discriminar as minorias, por outro lado estas não devem cultivar um "nacionalismo local" etnocêntrico, o que só favoreceria os inimigos imperialistas. Por exemplo, "no Tibet, ainda não se introduziu nenhuma reforma democrática porque as condições para isso ainda não estão maduras" (EF, p. 123). Isto quer dizer simplesmente que se deve respeitar a minoria chinesa constituída pelos tibetanos. As inovações só devem ser introduzidas "quando a maioria do povo e das personalidades tibetanas acharem que é oportuno" (EF,p. 123).
Em 1945, Mao se manifestou favoravelmente a respeito do Manifesto do I Congresso Nacional do Kuomintang, redigido pelo Dr. Sun Yat-sen, que defende a "libertação da nação chinesa pela própria nação chinesa e, segundo, a igualdade de todas as nacionalidades da China" (OE 3, p. 404). E ainda: "O Kuomintang declara solenemente que reconhece o direito de autodeterminação a todas as nacionalidades da China e que será estabelecida uma República da China livre e unificada (união livre de todas as nacionalidades" (OE 3, p. 404).
A passagem em que o respeito às minorias linguísticas é defendido mais explicitamente é a seguinte: "A língua falada e escrita, os hábitos, os costumes e as crenças religiosas dessas minorias devem ser respeitados" (OE 3, p. 404). Par tanto aconselha que "os comunistas devem ajudar activamente as grandes massas populares de todas as minorias nacionais a lutar" pela "política do Dr. Sun em matéria de nacionalidades" (OE3, p. 404). A ideia de respeito à diversidade estende-se até às línguas estrangeiras. Segundo Mao, "é preciso assimilar das línguas estrangeiras aquilo que necessitamos. Não devemos utilizar as expressões estrangeiras mecanicamente, abusivamente, mas sim extrair das línguas estrangeiras o que é bom e útil para nós. Como o velho vocabulário chinês é insuficiente, muitas das palavras do nosso vocabulário actual são assimiladas das línguas estrangeiras. Por exemplo, hoje estamos procedendo a uma reunião de campu (quadros), ora, a palavra campu veio do estrangeiro. Há que assimilar ainda mais o novo no estrangeiro, não somente ideias progressistas, também termos novos" (OE 3, p. 79). Isto em 1942. Em 1956 ele voltou ao assunto, lamentando que "os que aprendiam inglês deixaram de fazê-lo e que as teses acadêmicas não são mais traduzidas para o inglês, francês, alemão ou japonês para fins de intercâmbio. Este é outro preconceito" (ES, p. 188).
Sumariando, par Mao não se pode tratar os falantes de dialetos regionais com arrogância nem invadir com violência as minorias linguísticas. Ambos devem ser integrados na grande China, unificados, mas espontaneamente, a fim de se defenderam contra o inimigo externo. O chauvinismo é condenável em todos os sentidos. O mais importante é o internacionalismo, o que faz com que até mesmo as línguas estrangeiras devam ser levadas na devida conta, ou seja, na medida em que ajudam na construção do progresso das massas, e não de uma pequena minoria.

5. Diacronia: linguagem tradicional versus linguagem atual
'Os homens fazem sua história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado" (Marx 1978: 329). Só que o homem pode influir na mudança das próprias circunstâncias, como está dito na terceira tese sobre Feuerbach (Marx 1978: 51). Em suma, como diz Mao, "o povo, e só o povo, constitui a força motriz na criação da história" (OE 3,  p. 318). Portanto, é o próprio homem que produz a linguagem, como vimos no item 2, que trata justamente da criação, da gênese da linguagem. Ou seja, na sua luta diuturna pela sobrevivência, o homem produz não só meios de subsistência, mercadorias, instrumentos, artefatos, mas também linguagem. "Enquanto unidades da língua as palavras são produtos saídos do trabalho linguístico. Tais produtos tornam-se materiais e instrumentos no curso do trabalho linguístico posterior pelo qual se produzem as mensagens" (Rossi-Landi 1975: 111). De modo que "o trabalho linguístico e o não linguístico, cujos caracteres são frequentemente separados arbitrariamente, se reduzem ao gênero ao qual pertencem na mesma qualidade" (Rossi-Landi 1975: 112). O processo de produção (linguística e não linguística) mais democrático é, como sempre enfatizaram Marx e Mao, entre outros, o cooperativo, o que não quer dizer que o competitivo também não se tenha sempre posto em prática, sobretudo nos regimes totalitários, injustos e discriminadores.
É claro que a linguagem produzida pelos nossos antepassados nos é transmitida. "A tradição de todas as gerações mortas oprime o cérebro dos vivos como um pesadelo" (Marx 1978: 328). Trata-se do aspecto acervo da linguagem, daquilo que nossos antepassados nos legaram já feito, como sistema, e que funciona como instrumento para continuarmos nos comunicando. Significa isso que estamos presos à linguagem que nos foi transmitida, que não podemos modificá-la? Basta lembrarmos que se a linguagem tem um lado produto (do passado), tem também um lado instrumento, que é o próprio produto, visto de outra ótica. Dito de outro modo, longe de ser uma camisa de força que nos aprisiona, a linguagem transmitida do passado é um instrumento de produção de novas mensagens, ou seja, a linguagem é dinâmica. Aliás, como entender que não contribuímos para o acervo linguístico uma vez que continuamos interagindo, produzindo linguística e não linguisticamente? Da interação entre os dois tipos de produção, resulta um enriquecimento mútuo. Por um lado o acervo linguístico é enriquecido de novos meios expressionais. Por outro lado, a língua favorece a criação de novos produtos, de novos meios de consumo. Mas, infelizmente os sicofantas da minoria detentora do poder nunca aceitam isso, ou melhor, tentam separar as duas coisas e fazer crer que a única linguagem correta é aquela antiquada de que são os únicos detentores, com a finalidade de oprimir a grande maioria do povo. Eles não percebem que uma língua que não evoluísse não serviria para falar das novas realidade com que o homem se defronta. Quem não admite a evolução da linguagem se assemelha a alguém que ficasse apartado de sua comunidade por longos anos, ou até mesmo por apenas "dois anos". Quando se conversa com pessoas que passaram por isso, "são incapazes de dar respostas sensatas. Elas ainda falam a linguagem de dois anos atrás" (ES, p. 192). Tal é a dinamicidade da língua. Os que não desejam que os novos instrumentos de comunicação produzidos pela geração atual passem a fazer parte da linguagem coletiva assumem uma atitude subordinadora, competitiva, na luta pelo poder. Eles recolheram um pouco da água do grande rio que é a língua em um tanque (dicionário e gramática normativos) e passaram a ignorar a torrente que continua a fluir no leito do rio. Para eles, apenas a água estancada, e estagnada, de que passaram a ser os proprietários é boa, "correta". Não percebem que ao longo do tempo sua aguinha tende a ficar choca, suja, e que a água pura do rio continua a fluir naturalmente. Por isso, tanto o ensino quanto os textos considerados bons passam a ser "quer no conteúdo quer na forma, do gênero de clichê e dogma" (OE 3, p. 69).
Aqueles que se aferram a uma linguagem antiquada perdem o pé da realidade, não falam a linguagem da maioria, mas sim uma linguagem no "estilo de clichê", só inteligível a uma minoria. "Não respondem às necessidades do proletariado,  mas sim às das classes exploradoras" (OE 3, p. 72). É uma forma de esconder o conteúdo real, "que classifica as coisas pelos aspectos externos, não pelos laços internos" (OE 3, p. 81), numa "fraseologia interminável e fazia de sentido" (OE 3, p. 73), "com ares afectados e pretensiosos destinados a intimidar as pessoas" (OE 3, p. 74), o que constitui "desonestidade pura e simples" (OE 3, p. 74). Isto porque "estão realmente decididos a não serem lidos nem ouvidos por ninguém" (OE 3, p. 77), uma vez que visam esconder a verdade. Pode ser até que fiquem gritando a transformação total no sentido dum estilo de massas mas [são] incapaz[es] de dizer três frases na língua da gente comum" (OE 3, p. 86).
A língua atual, como é usada pelo povo, é um produto do passado, é um aspecto do acervo cultural do passado, é uma realidade que "não deve ser rejeitada totalmente, nem copiada cegamente, havendo que aceitá-la com discernimento, de modo que ajude o professor da cultura da nova era" (OE 3, p. 403). Em diversas passagens de suas obras, Mao cita provérbios chineses antigos, frases de Confúcio, mas par que sirvam de instrumento para enfrentar as novas realidades a fim de não se inventar a roda a cada geração. Só não podemos deixar que a "opressão" das gerações passadas, de que nos fala Marx, nos massacre, como bem gostariam que acontecesse os burgueses, os privilegiados do poder.
Mao chega a recomendar explicitamente o estudo da história, tanto a da China quanto a universal 9OE 3, p. 14). No entanto, recomenda também uma adequação da forma antiga, já provada em outras circunstâncias, ao conteúdo novo, revolucionário (OE 3, p. 11, 42). Em síntese, para uma perspectiva maoísta, que está bem dentro da ótica mais ampla do marxismo, a língua é de fato um produto do passado. No entanto, como qualquer produto pode e deve funcionar também como instrumento para produzir novas mensagens sob novas condições. Desta produção surgirão, necessariamente, novos produtos que serão instrumentos novos p0ara as gerações futuras. A linguagem é como a vida do homem social, está em constante evolução.

6. A produção de textos
Sempre que alguém envia uma mensagem a outrem, tanto por escrito quanto oralmente, produz um texto. Este é, portanto, o produto mesmo da atividade comunicacional concreta. É nele que se manifesta a linguagem com todas as suas contradições. Assim sendo, ele não podia ficar fora das preocupações de Mao Tsetung. É legítimo até mesmo dizer que foi ao texto que ele dedicou a maior parte de suas reflexões sobre o fenômeno linguagem. A tal ponto que dedicou pelo menos quatro escritos, total ou parcialmente, ao assunto. O primeiro deles (OE 3, p. 67-93) se intitula "Contra o estilo de cliché do partido" (de 8/2/1942) e trata exclusivamente do assunto produção de texto. O segundo (OE 3, p. 95-146), "Intervenções nos Colóquios de Ien-an sobre literatura e arte" (maio de 1942), trata da produção literária, mas também da produção artística em geral. O terceiro (OE 4, p. 365-372), "Palestra aos redactores do Diário de Xansi-Sun-Iuan (2/4/48), trata da questão da produção do texto jornalístico, ao qual Mao dedicava uma atenção toda especial devido ao grande número de pessoas que o jornal atinge. O quarto (OE 4, p. 267-271), "Sobre a instituição do sistema de relatórios" (7/1/1948), apresenta conselhos para a elaboração de relatórios enxutos, sem palavrório desnecessário e inútil. Além desses quatro textos, há várias observações esparsas ao longo de toda a obra.
Como não poderia deixar de ser, a posição de Mao com relação ao texto decorre de sua "linha de massas" (OE 4, p. 366), de seu "estilo de massas" (OE 3, p. 101). A melhor maneira de se comunicar com as massas é através de slogan, ou seja, através de frases curtas, sem termos rebuscados, de comunicação direta. Os textos destinados às massas, tanto escritos quanto orais, "devem se vivos, claros, e incisivos e jamais devem falar entre dentes" (OE 4, p. 372). A concisão é, portanto, uma das primeiras característica de um texto que pretenda atingir as massas. Em diversas oportunidades Mao condena o "entregar-se a fraseologia interminável e vazia de sentido" e concita todos a que aprendam "a escrever artigos curtos e substanciosa" (OE e, p. 73; EF, p. 151). No escrito de 1942 mencionado acima ele subscreve e transcreve algumas da oito regras formuladas por Lu Sun. A quarta elas diz o seguinte: "Depois de se ter escrito algo, ler pelo menos duas vezes o que se escreveu e fazer o máximo por cortar sem perdão as palavras, frases e parágrafos não indispensáveis. Mais vale condensar a matéria dum romance num conto que alongar a matéria dum conto por todo um romance" (OE 3, p. 90). Em 1948, Mao diz em seu estilo incisivo: "Cada relatório deverá reduzir-se a cerca de mil palavras e, excepto em casos especiais, não poderá ultrapassar duas mil palavras". "O relatório geral deve limitar-se ao essencial e ser de estilo conciso; sublinhando os problemas ou os pontos em discussão" (OE 4, p. 268). Em síntese, "tudo deve ser claro e conciso" (OE 4, p. 587).
A segunda característica que Mao exige de um texto é a acessibilidade, a simplicidade, ou seja, ausência de formalismo vazio, de forma pela forma, adequação da forma e do conteúdo. Quem escreve ou fala às massas deve usar uma linguagem acessível, sem termos rebuscados, arcaicos ou especiosos, "doutro modo estão realmente decididos a não serem lidos nem ouvidos por ninguém" (OE 3, p. 77). A última regra (a sexta) de Lu Sun que ele transcreve diz o seguinte: "Não fabricar adjetivos ou outros termos incompreensíveis para todos exceptuando o próprio autor" (OE 3, p. 90). Quem o fizer estará cometendo um grande erro, e "as suas obras são insípidas, cheias de expressões fabricadas, nem carne nem peixe, a cem léguas da distância da linguagem popular" (OE 3, p. 101).
Mao condena enfática e ironicamente o formalismo. É o que ele chama "estilo de cliché" (OE 3, p. 67-93). Ele chega a considerar este estilo como um crime (Mao alinha sete "crimes" aí). O "quarto crime" consiste em "alinhar os pontos a tratar segundo uma ordem de cabeçalhos como nas farmácias tradicionais chinesas" (OE 3, p. 80). É o que ele chama ironicamente de "método da farmácia chinesa" ou "método do formalista que classifica as coisa pelos aspectos externos, e não pelos laços internos" (OE 3, p. 81). Mas, "o estilo de cliché do partido não se limita apenas aos artigos e discursos, revela-se também na maneira como se conduzem as nossas reuniões: 1. abertura; 2. relatório; 3. discussão; 4. conclusões; 5. encerramento" (OE 3, p. 84). "Os 'relatórios' apresentados nas reuniões contêm frequentemente tais pontos: 1. situação internacional; 2. Situação interna; 3. Situação na região fronteiriça; 4. Situação na nossa secção de trabalho" (OE 3, p. 85). Isso é um "proceder mecânico" (OE 3, p. 84). Um estilo assim revela "subjetivismo" e "sectarismo", que são "antimarxistas; não respondem às necessidades do proletariado, mas sim às das classes exploradoras. São um reflexo da ideologia pequeno-burguesa" (OE 3, p. 72), e quem os pratica toma "ares afectados e pretensiosos destinados a intimidar as pessoas" (OE 3, p. 74). "A verdade não tem que recorrer à pose da intimidação; impõe-se por palavras e actos sinceros" (OE 3, p. 75).
A forma deve adequar-se ao conteúdo, não o contrário. "A característica comum da literatura e arte de todas as classes exploradoras, na fase de decadência é a contradição entre o conteúdo político reaccionário e a forma artística das obras. O que nós exigimos é unidade da política e da arte, unidade de conteúdo e forma, a unidade dum conteúdo político revolucionário com a forma artística mais perfeita possível" (OE 3, p. 131). "Separar o conteúdo internacionalista da forma nacional é prática dos que não compreendem coisa alguma sobre internacionalismo" (OE 3, p. 91). O formalismo está em oposição frontal a um princípio elementar do marxismo que consiste em "ligação entre teoria e prática" (OE 3, p. 42). Em 1942, Mao ainda dizia: "a nossa frente teórica está longe de encontrar-se em harmonia com a riqueza de conteúdo do movimento revolucionário chinês" (OE 3, p. 42).
Inadequação de forma e conteúdo, forma pela forma (formalismo) e estilo complicado, tudo isso tem um endereço certo, ou seja, usar "palavras bonitas" (OE 4, p. 164), "grandes palavras vazias de conteúdo" (OE 3, p. 395), típicas da "dissertação em oito partes", que era "destituída de qualquer conteúdo, jogava com as palavras e apenas se preocupava com a forma. Cada uma das partes estava limitada a regras imutáveis e, inclusivamente, a um número determinado de caracteres; assim, para a composição, não havia mais que conformar-se mecanicamente às fórmulas requeridas para um ou outro assunto determinado" (OE 3, p. 35, 72). Em suma, trata-se da retórica oca de que se servem as minorias privilegiadas que oprimem o povo na prática, mantendo-o na miséria, mas lhe dizendo em "palavras bonitas" que tudo vai bem. Qualquer semelhança com o Brasil atual e dos últimos vinte anos não é mera coincidência.
O que falta em discursos como esses é pura e simplesmente verdade, sinceridade e honestidade. Para Mao, "de um modo geral é verdadeiro o que traz êxito, e falso o que traz derrota" (EF, p. 150). Êxito para ele significa vitória definitiva das grandes massas sobre a minoria (interna e externa) que as oprimem. Com efeito, não existe uma verdade eterna e imutável; pelo contrário, ela é histórica, o que é verdadeiro numa época poderá não sê-lo em outra e vice-versa" (OE 3, p. 6-7). "Todo conhecimento legítimo provém da experiência imediata" (EF 9), ou seja, "da práxis social" que compreende "a luta pela produção", "luta de classes" e "a experimentação científica" (EF, p. 149). Afinal, "só há uma teoria verdadeira: a que é tirada da realidade objectiva e confirmada por essa mesma realidade; nada mais é digno do nome de teoria, no sentido em que a entendemos. Estáline disse que a teoria perde o seu objecto quando se desliga da prática. A teoria que não tem objeto é inútil, é falsa e deve ser rejeitada" (OE 3, p. 48). "Por outro lado, os camaradas que se empenham em trabalhos práticos sofrerão reveses se fizerem mau uso da sua experiência..... Eles precisam de compreender que os seus conhecimentos são principalmente de grau sensível, parciais, faltando-lhes conhecimentos racionais, generalizados; noutros termos, falta-lhes teoria" (OE 3, p. 49). Mas, os textos não devem ser um reflexo mecânico da realidade, meras descrições frias e descompromissadas. Pelo contrário, eles devem estar engajados na justa luta do povo contra a opressão, "a vida refletida nas obras literárias e artísticas pode e deve colocar-se num plano ainda mais alto, ser mais intensa, mas condensada, mais típica, mais próxima do ideal e, por consequência, dum caráter mais universal que a vida real de todos os dias" (OE 3, p. 117). "Seja em que momento for, um comunista deve estar pronto a persistir na verdade, pois a verdade concorda sempre com os interesses do povo" (OE 3, p. 420-421).
"Palavras no papel não são o mesmo que a realidade" (OE 4, p. 64). Quando um porta-voz de um regime tirano vem a público com belas palavras, mas "vazias de conteúdo" (OE 3, p. 395) está, pura e simplesmente, mentindo, "pois tais palavras no papel estão em contradição com a realidade" (OE 4, p. 64). No caso, tratava-se do Acorde de Dez de Outubro do PC da China com o Kuomintang. "Embora escrita no Acordo, a paz ainda não é uma realidade" (OE 4, p. 64). Os textos não podem se hipócritas, mascarando a realidade. Lutar para modificá-la, sim, mas não embelezá-la, falseá-la, como faz a ideologia reaccionária com o fito de enganar o povo e não perder os privilégios do poder.
Só pode dizer a verdade quem é sincero, quem não se limita a falar sobre a realidade, mas põe em prática o que diz (OE 3, p. 389). É preciso não desvincular a teoria da prática (OE 3, p. 16). Por isso, "o critério supremo para julgar as palavras e actos dum comunista está em saber se se conformam com os mais altos interesses da esmagadora maioria do povo e se beneficiam do apoio dessa maioria" (OE 3, p. 4220. Um discurso sincero é aquele de quem poderia dizer: "façam o que eu digo porque eu digo o que faço". Para Mao, "nunca devemos fingir que conhecemos aquilo que não conhecemos" (OE 4, p. 583). Quem é sincero, humilde, sem arrogância e alia sua teoria à sua prática, tem um discurso transparente, que não teme a verdade, e "uma vez que as massas saibam a verdade e tenham um objectivo comum, elas trabalharão como um só homem" (OE 4, p. 365). Por outras palavras, quando o povo nota sinceridade em quem fala, acredita nele e o apoia.
Aqueles que dizem uma coisa e fazem outra, que torcem a verdade, que não são sinceros são, com todas as letras, desonestos. Com estes "devemos ser severos" (ES, p. 191). O povo não os perdoa, pelo menos a longo prazo. Portanto, é melhor ser sincero, honesto, dizer sempre a verdade. Afinal, "aquilo que é científico nunca receia a crítica, pois a ciência é verdade, de modo nenhum teme a refutação". Quem diz a verdade, é sincero e honesto não precisa "tomar ares pretensiosos para intimidar as pessoas" porque "a verdade não tem que recorrer à pose da intimidação; impõe-se por palavras e actos sinceros" (OE 3, p. 75).
7. Observações finais
Já vimos que Ao era um homem pragmático, voltado durante toda sua vida para a atividade de transformação da situação injusta reinante em seu país. Até mesmo o conhecimento que ele praticou, seus escritos teóricos, estão voltados para a prática, não se desvinculam das questões práticas. Para ele, "se você quiser adquirir conhecimento precisa participar da práxis transformadora da realidade" (EF, p. 9), pois "todo conhecimento legítimo provém da experiência imediata" (EF, p. 9). A práxis social para ele compreende, como já vimos, "a luta pela produção, a luta de classes e a experimentação científica" (EF, p. 149).
Como homem de ação, voltado para o interesse das massas, defendia veementemente o uso de uma linguagem acessível às massas, embora não descartasse a elevação do nível intelectual delas. Por linguagem acessível ele queria dizer não apenas evitar a "língua escrita clássica" (OE 3, p. 68) e os ideogramas arcaicos, típicos de "velhos letrados" (OE 3, p. 77), mas também usar "estilo conciso" (OE 4, p. 268), textos cursos (OE 4, 268); OE 3, 90), períodos curtos, sem muitas orações subordinadas, intercaladas, se sempre na forma mais direta possível.
Ao lado de todas essas recomendações, Mao defendia também veracidade, sinceridade e honestidade. Pois bem, ninguém mais do que ele tinha moral para falar disso, ninguém mais do que ele praticou tudo isso no decorrer de toda sua intensa atividade d produção de textos. Todos os textos que compõem sua vasta obra são curtos, concisos, compostos de períodos curtos, sem muitas subordinadas e intercaladas. Sempre se referem a uma situação concreta. Todos eles são de uma coerência a toda prova. Até mesmo os textos filosóficos sempre dão exemplos práticos, tirados da atividade revolucionária. Seus textos apresentam uma média de aproximadamente dez páginas cada um, se tanto. Contrariamente a Marx, Engles e até Lenin, que às vezes eram bastante prolixos, Mao sempre deu seu recado de maneira concisa e sucinta, sem muita citação de clássicos, típica desses três pensadores, mais os dois primeiros do que o terceiro. A Mao se aplica com muito mais justiça o que Fromm disse de Marx: "ele era o que pensava" (Fromm 1970: 81). Ou melhor ainda, Mao era o que dizia, dizia o que pensava e pensava o que fazia.
Bibliografia
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Fromm, Erich. 1970. O conceito marxista do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 5a ed.
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Rossi-Landi, Ferruccio. 1975. "A linguagem como trabalho e como mercado". In: Escobar, C. H. (org.). Semiologia e linguística hoje. Rio de Janeiro: Pallas, pp. 111-139.
Sader, Eder (org.). 1982. Mao Tsetung. São Paulo: Ática (Introdução).

Ilinguagem

1. Introdução
Gostaria de começar justificando a própria palavra ilinguagem. Ela é um neologismo que propus pela primeira vez em Couto (a sair: cap. VI) para designar toda uma série de situações e fatos comuns na sociedade brasileira, como veremos logo abaixo. Ela não está registrada em nenhum dos dicionários da língua portuguesa. Tampouco nos estudos de linguagem creio que ela já tenha sido usada. No entanto, não se trata de um barbarismo nem de uma formação ilegítima. Pelo contrário, a palavra foi formada perfeitamente de acordo com as regras da gramática morfológica da língua portuguesa, contrariamente a muitos termos já consagrados na linguística e em outras ciências que são pura e simplesmente transposições de palavras inglesas. É escusado dar exemplos, pois eles existem às carradas em todos os domínios dessas ciências. No caso presente, basta dizer que a palavra "ilinguagem" foi formada pelo modelo de "ilegalidade", "irregularidade", "imaturo", "inato", "inseguro" e outros. Ou seja, trata-se de um derivado formado pelo acréscimo do prefixo de negação "in-" a um adjetivo e, consequentemente, ao substantivo abstrato dele derivado.
Alguém poderia alegar que "ilinguagem" seria diferente morfologicamente de todos os exemplos dados devido ao fato de se tratar da combinação do prefixo "in-" com um substantivo que não é derivado de um adjetivo. Por isso, gostaria de mencionar um outro neologismo que, esse sim, foi formado pela combinação desse prefixo com um substantivo não derivado de adjetivo. Trata-se da palavra "inverdade". A maior parte dos dicionários brasileiros não a consignam. Assim, no Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (Rio de Janeiro / São Paulo: Ed. Civilização Brasileira / Cia. Editora Nacional, 11ª ed. 1969) ela está ausente.  O seu sucessor, Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (Rio: Ed. Nova Fronteira, 1ª ed, 1975), tampouco a consigna nessa primeira edição. Porém, na segunda edição de 1986, revista e ampliada, já se pode ler o seguinte: "Inverdade. [De in2 + verdade]. s. f. Falta de verdade; mentira".  Como é de praxe na lexicografia, a seguir vem uma abonação do termo: "Dizem, e não é inverdade, que a sua fantasia [de Castro Alves] era opulenta, e riquíssima em tintas violentas a sua paisagem. Constâncio Alves (1921) Figuras. Rio de Janeiro: Edição do Anuário do Brasil".
A afinidade entre o termo ilinguagem, que estou propondo, e inverdade não se restringe a essa vernaculidade morfológica. O segundo entrou na língua pelo menos no início de nosso século para preencher uma lacuna, porque havia fatos sociais que precisavam ser designados. Como diz Sapir (1969), não basta a mera presença de determinado acidente no ambiente, tanto físico quanto social, para que surja uma palavra para designá-lo. É necessário que a comunidade de falantes tenha algum interesse nesse acidente. É preciso que os falantes sintam necessidade de designá-lo. Portanto, o termo inverdade veio para designar fatos e situações já existentes na sociedade brasileira. Os falantes sentiram que apenas 'verdade" e seu oposto "mentira" não eram suficientes para designar as filigranas de significado que precisavam expressar. No caso, eles precisavam expressar algo que não era nem uma verdade pura nem uma mentira pura, mas algo indefinido entre ambas, ambíguo, que pudesse ser manipulado. Com isso já temos uma primeira definição de ilinguagem, isto é, um tipo específico de linguagem em que não há verdades nem mentiras, mas inverdades. Porém, há toda uma coorte de outras situações e fenômenos que entrariam na categoria de ilinguísticos. É o que vamos ver na seção 3, abaixo.
2. Definindo ilinguagem
Não basta afirmar que ilinguagem é a linguagem em que se expressam as inverdades. Trata-se de uma definição ampla demais. Portanto, é necessário que especifiquemos mais o que ela significa. Nesse sentido podemos dizer que ilinguagem é a linguagem em que o que se diz :
(a) não é o que se quer dizer
(b) não é para valer
(c) tem várias interpretações
(d) encobre o que efetivamente se quer dizer
(e) tem uma interpretação oficial e outra paralela.
Gostaria de adiantar que nem tudo que comentei e critiquei em Couto (a sair) entra na categoria da ilinguística. Assim, o uso de nomes próprios estapafúrdios como Acarirton, Acarilton, Acarícia e Acarília, e outros piores ainda, revelaria uma ignorância do código antroponímico luso-brasileiro por parte de pessoas incultas. Tampouco seria ilinguístico o uso do que se poderia chamar de frase interrompida como, por exemplo, "Hoje tá muito....". O interlocutor a decodifica porque conhece o contexto da situação em que ela foi proferida. Todos esses casos, e outros semelhantes, são verdadeiras aberrações para o purista. No entanto, são inocentes, são típicos de um nível de linguagem menos culto, mais distante do português padrão.
O que estou querendo dizer é que a ilinguagem é mais própria da classe média e das elites urbanas, que têm necessidade de toda uma série de subterfúgios para esconder suas patranhas e a pilhagem que perpetram contra o bem público. O homem rural, ao contrário, não tem muita necessidade de dizer inverdades. Como vive lutando diretamente com o meio físico para ganhar a vida, ele é mais direto em tudo. Para ele, o que se diz é exatamente o que se quer dizer; o que se diz é para valer, não tem mais de uma interpretação nem encobre o que se quer dizer. Portanto, não há uma interpretação oficial e uma paralela para o que alguém diz, como ocorre nos meios urbanos. Em suma, para ele, o que alguém diz ou é verdade ou é mentira. Não existe o lusco-fusco da terra de ninguém em que algo possa ser nem verdadeiro nem falso ou, por outro lado, ser tanto verdadeiro quanto falso. Além disso, ele não precisa de muitos eufemismos para palavras que a suscetibilidade urbana considera "fortes" ou "grosseiras" demais, como se ao chamarmos "bunda" de "bumbum" nos referíssemos a outro designatum. Para ele, "bunda" é bunda mesmo, e ponto final.
Não estou com isso querendo negar o fato de que quanto mais palavras e, consequentemente, mais meios expressivos tivermos mais rica será a nossa linguagem. Apenas estou tentando explicitar a diferença entre a ideologia (ou cosmovisão) urbana e a rural. De acordo com a primeira, tudo é relativo, dúbio e manipulável, uma vez que distanciado do mundo real, da natureza. Para a segunda, cada coisa tem seu nome, não há apelidos. Parafraseando o cantor Falcão, para o homem rural, 'homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e viado é viado"; todo o resto é conversa fiada.
A diferença consiste em que no processo de designação das coisas, o homem rural parte da própria coisa, ao passo que o urbano parte da palavra ou signo que designa a coisa. Mais tecnicamente, o primeiro parte do referente,  o segundo parte do signo. Segundo Umberto Eco, a linguagem do segundo é mais rica. No entanto, é sempre uma espécie de distorção da realidade. Para ele, linguagem (no caso a do homem urbano) "é tudo que pode ser usado para mentir" (Eco 1979: 7). É, portanto, manipulável, coisa que normalmente não acontece com a linguagem do homem rural ou, pelo menos, acontece em menor grau. Segundo o sociólogo inglês Basil Bernstein, a linguagem urbana seria um "código elaborado" de determinada língua, enquanto que a linguagem rural seria seu "código restrito". O primeiro é descontextualizado, permite falar de coisas in absentia, ao passo que o segundo seria altamente contextualizado, dêitico, portanto, mais próprio para falar de algo in praesentia (Bernstein 1972) .
3. A ilinguagem na cultura brasileira
O conceito de ilinguagem surgiu da observação da vida social brasileira. Seria portanto interessante apresentar alguns fatos do quotidiano da vida do brasileiro que se caracterizam como ilinguísticos. Começo com o que parece o mais simples de todos. Trata-se do fato de os ciclistas trafegarem na contramão. Todos nós sabemos, inclusive os ciclistas, que isso é irregular, vai contra as regras de trânsito. Mas, digamos que as regras de trânsito sejam absurdas e que não seja tão importante assim obedecê-las. Acontece que não é só isso. Trafegar na contra-mão é perigoso; o ciclista que o faz sabe disso. Então, por que o faz? Simplesmente porque ele sabe que os motoristas não o respeitam. Por isso ele trafega na contramão porque assim vê os carros que vêm, portanto pode se proteger pelo menos até certo ponto. Se fosse pela mão normal, poderia ser atropelado por trás. A consequência disso é que algo que é irregular, ilegal, passou a ser a norma, fato introjetado por motoristas e ciclistas e pela sociedade em geral. Trata-se, portanto, de uma manifestação claramente ilinguística uma vez que o que está estabelecido (dito) nas leis de trânsito não é para valer. Na prática todos sabem que o que funciona é outra coisa.
As mudanças constantes que qualquer administrador introduz assim que assume cargo novo, mudanças apenas de fachada, também vêm a calhar neste contexto. Um chefete do Banco Regional de Brasília tirou o "Regional", certamente com o brilhante argumento de que o banco almeja ir além de uma regionalidade. Ele não sabe que um dos maiores bancos do mundo se chama "The Frist National City Bank of New York". Os nomes das ruas são mudados ao sabor dos prefeitozinhos que assumem o novo cargo. Um professor universitário quis certa feita mudar o Hino Nacional, com argumentos os mais idiossincráticos, nenhum deles convincentes. O que se consegue com essas mudanças constantes é uma incerteza nos indivíduos quanto ao que vale, uma vez que diante do antigo e do novo, o que se vê pode ter mais de uma interpretação, pois é ambíguo.
Na ortografia do português brasileiro, de vez em quando algum ilustre filólogo introduz alguma ¢inovação”. Já tivemos reformas ortográficas em 1931, 1934, 1938, 1943 e 1971, além da que acaba de ser aprovada pelo congresso (1995). Em apenas 40 anos tivemos 5 reformas. Segundo o falecido filólogo Serafim da Silva Neto, de quem colhi essas informações, a reforma de 1943 já provocava insatisfação em muita gente, inclusive nele próprio. No caso das reformas ortográficas, tem muita gente que ainda não assimilou a de 1970 e aqui estamos vendo outra ser implantada, tão ou mais caótica que a outra. A alegação dos afoitos reformadores é a de que escrevendo‑se "fato" no Brasil e "facto" em Portugal provoca desentendimento. A consequência disso é que as pessoas mais idosas, cuja vida passou por todas essas reformas, não sabem como é que se escreve, diante de tanta mudança.
O mesmo vale para os planos econômicos. De tanto ver tais planos, as pessoas perderam a noção do valor da moeda. Para se entenderam apegaram-se ao dólar norte-americano. Com isso as pessoas não sabem se o que está aí é para valer ou não, ou se ainda vale ou não, pois tem muitas interpretações, cada indivíduo atribui à moeda o valor que mais lhe convém e assim por diante. A única maneira de haver algum tipo de interação é agarrarmo-nos nessa moeda estrangeira.
A profusão de leis é uma outra instância em que a ilinguagem se manifesta com todo vigor. Onde ninguém obedece às leis, criam‑se leis em demasia na vã esperança de que tudo pode ser regulado por decreto‑lei. E isso parece ser geral entre os latinos. Tanto que, a propósito das leis francesas, já no século passado o jurisconsulto Dalloz dizia:
Quando a ignorância está no seio de sociedade e a desordem nos espíritos, as leis tornam‑se numerosas. Os homens esperam tudo da legislação e, sendo cada lei nova um novo desapontamento, continuam a pedir‑lhes sem cessar o que não pode vir senão deles próprios, da sua educação, do estado dos seus costumes.
    (apud Kropotkin 1987: 68).
Como se vê, a existência de muitas leis não implica necessariamente que "há leis", que há um conjunto de normas que regulam o comportamento coletivo, ou seja, uma linguagem. Excesso provoca perplexidade nas pessoas, pois, como afirma o dito popular, tudo que passa sobra. Leis em demasia faz com que as pessoas nunca saibam o que é que vale. Elas sabem que há um decreto‑lei, mas ele pode ser inconstitucional, além de ter sido regulado por uma portaria, que revoga uma portaria anterior, além do fato de que a referida lei já pode ter sido alterada em sua essência, quando não pura e simplesmente revogada. A própria constituição é um exemplo típico. No afã de regular tudo na Carta Magna, o legislador entra em detalhes que só leis ordinárias poderiam regular. Com isso a constituição fica imensa, difícil de ser entendida, além do fato de um ou outro segmento da sociedade sempre querer alterá‑la. No caso da história constitucional brasileira, só a partir da época em que passei a observar a arena política já vi desfilarem três constituições, além das outras quatro que a partir de 1822 as precederam. Ora, diante de tanta constituição como é que o cidadão vai saber o que é legal e o que é ilegal? Como é que ele pode saber o que os detentores do poder consideram lícito e o que consideram ilícito?
Vê-se, assim, que a profusão de leis está em perfeita sintonia com a tese da ilinguagem. Diante de um estado de coisas como o que Kropotkin transcreveu, o que há é um cipoal, um caos, em que os indivíduos não se entendem. Como não se entendem, as leis não são para valer. O que vale é o levar vantagem, é criar fatos consumados, como as invasões de áreas públicas urbanas pelos pobres e pelos ricos (condomínios). Portanto, todo esse caos ilinguístico visa encobrir o que efetivamente tem vigência, isto é, uma sociedade desigual, em que as elites saqueiam os cofres públicos, de modo que nada sobra para a assistência social.
A ambiguidade na linguagem, ou melhor, na ilinguagem, já foi analisada por mim em Couto (1987) mediante as categorias oficial e paralelo, por sugestão da taxa de câmbio. Temos uma linguagem oficial, expressa nas leis e a que vale, não explicitada em leis. Durante a ditadura militar (e não só nesse período), quando um ministro vinha à televisão e afirmava que estava firme no cargo sabíamos que no dia seguinte ele cairia. Ou seja, o que valia não era o que ele dizia; o que valia era exatamente o contrário do que ele dizia, uma vez que o que ele dizia encobria o que efetivamente queria dizer. A tal ponto que a população já tinha se acostumado a não levar a sério o que o governo dizia, o que valia era o que ela própria praticava, uma vez que ela tinha que se virar como podia independentemente dos poderes constituídos (oficial).
Esse tópico já foi suficientemente discutido no ensaio recém‑mencionado. No presente contexto, eu apenas gostaria de acrescentar que a força do poder paralelo no Brasil já é tão grande que o poder constituído (oficial) não penetra nos morros cariocas, para dar apenas um exemplo. O que vige lá é a lei dos traficantes de droga (paralelo). Trata‑se de um estado dentro do estado brasileiro, com seus poderes executivo, legislativo e judiciário. O executivo é tão poderoso que quem foge da linha é sumariamente executado. Lá as coisas são levadas a sério
Um dos casos mais flagrantes de ilinguagem é o da impontualidade. Quando vemos uma convocação de reunião de condomínio, de uma associação qualquer, de um departamento de universidade e, às vezes, até de assembleias legislativas, tem‑se mais ou menos o seguinte: "A reunião se iniciará às 10 horas com quorum regular, ou às 10:30 com qualquer número de presentes". O fato é que todo mundo já sabe que ela nunca começa às 10 horas. Portanto, todos comparecem (se e quando comparecem) a partir das 10:30. Isso significa que muita gente chega bem depois desse horário, no horário "de tolerância". O que isso significa?
Significa que o primeiro horário não era para valer, era de mentirinha. Como já sabemos que ninguém chega na hora marcada, marcamos uma segunda, na qual a reunião terá lugar e as decisões serão tomadas quer compareça o número mínimo de participantes quer não. Vê‑se, portanto, que o primeiro horário não era para ser levado a sério, era só para inglês ver. Em outros termos, a convocação que contém um segundo horário deixa dito nas entrelinhas o seguinte: "O horário é às 10 horas, mas isso não é para ser levado muito a sério. Se você quiser, pode chegar às 10:30".
A indicação de um segundo horário, que em geral é o que vale, surgiu devido a outro comportamento condenável do brasileiro, a impontualidade. O brasileiro nunca chega na hora marcada para um compromisso. Às vezes isso é até tido como charmoso, como típico de sua informalidade. Acontece justamente o contrário. Isso é índice de irresponsabilidade. Quando se marca uma reunião para as 10 horas com uma alternativa de 10:30, as pessoas que levam tudo que fazem a sério ficam desorientadas. Frequentemente chegam efetivamente às 10 horas. Acontece que os retardatários, aqueles que estão perfeitamente em sintonia com a esbórnia brasileira, chegam só a partir das 10:30. Como consideram que o horário que vale é a segunda alternativa, dão‑se o direito de chegarem atrasados relativamente a essa hora. Com isso, os pontuais ficam parados, perdendo tempo. Afinal, se a ilinguagem afirma que o correto é não levar a primeira alternativa a sério, por que chegaram pontualmente? Azar deles!
Todos deveriam saber que a primeira alternativa era de mentira, que só a segunda era para ser levada a sério. Só que mesmo essa segunda alternativa tem uma tolerância para os retardatários. Portanto, quem chega pontualmente às 10 horas está fora de contexto, não entendeu o espírito da coisa. Mesmo o horário que é para valer, 10:30, não deve ser levado muito a sério, pode‑se atrasar um pouquinho. A conclusão é a de que não se deve interpretar o que foi dito ao pé da letra. Deve‑se levar em conta é o que não foi dito, o que não está no texto do convite para a reunião. Deve-se, portanto, levar em conta não a mensagem linguística, mas a mensagem ilinguística.
Por fim, vejamos o caso dos "vigiadores de carros" que, como disse uma amiga, lotearam todas as cidades brasileiras. Quando tentamos estacionar o carro em qualquer via pública, sempre aparece um deles, ninguém sabe de onde. Ele chega e pergunta: "Qué qui vigia?" ou "Pode vigiá?". Isso é o que ele diz. No entanto, o que na realidade ele quer dizer é o seguinte: "Para estacionar aqui você terá que me dar dinheiro!" O que ele diz, portanto, não é o que quer dizer. Pelo contrário, esconde o que efetivamente quer dizer. Afinal, se ele o dissesse direta e cruamente, na linguagem, poderia haver atritos com o dono do carro. Portanto, como ele está em perfeita sintonia com a inorganização (perdoem mais esse neologismo, que significa "contrário de organização!") brasileira e sabe que o apressado motorista também deve estar, ele se lhe dirige na ilinguagem. Com isso contribuem ambos para perpetuar a esbórnia. E assim poderíamos continuar a enumeração de fatos ilinguísticos ad libitum, pois eles abundam na cultura brasileira. Mas, não só nela.
4. Observações finais
Creio que ficou bastante claro que, no Brasil, em vez de uma linguagem que permita a interação não-conflituosa entre os indivíduos, o que temos é uma ilinguagem. Creio também que os exemplos apresentados no item anterior deixaram patente o fato de que ilinguagem é a linguagem em que o que se diz (a) não é o que se quer dizer,  (b) não é para valer, (c) tem várias interpretações, (d) enconbre o que efetivamente se quer dizer, (e) tem uma interpretação oficial e outra paralela. Aliás, isso é tido como algo de positivo no comportamento do brasileiro: informalidade e cordialidade. No entanto, como tentei mostrar no primeiro capítulo de Couto (a sair), o que isso de fato mostra é uma tremenda irresponsabilidade e falta de respeito para com o outro. O resultado é um mundo de cada um para si e Deus para os mais fortes. A ilinguagem está aí para lhe dar expressão.  
No que diz respeito especificamente à própria palavra “ilinguagem”, tentei mostrar que não era uma criação arbitrária. Pelo contrário, vimos que ela está perfeitamente de acordo com a gramática morfológica do português. No entanto, se mesmo assim alguém continuar achando que ela é um barbarismo, não faz mal. Nesse caso ela apenas refletiria a barbárie que é a vida social brasileira, isto é, refletiria o que deveria ser a linguagem brasileira. Por isso mesmo, ela é uma ilinguagem.
Referências
Bernstein, Basil. 1972. Social class, language and socialization. In: Giglioli, P. P. (org.) Language and social context. Harmondsworth: Penguin Books: 157-178. 
Couto, Hildo Honório do. 1987. O oficial e o paralelo. Correio do livro II(2), p. 5.
_______.O público, o privado e a privada: Ecologia e linguagem. Disponível em:http://ilinguagem.blogspot.com.br/2015/08/o-publico-o-privado-e-privada.html (acesso: 10/01/2018).
Eco, Umberto. 1979. A theory of semiotics. Bloomington: Indiana University Press.
Kropotkin. 1987. Textos escolhidos. Porto Alegre: L&PM.
Sapir, Edward. 1969. Língua e ambiente. In: Linguística como ciência. Rio de Janeiro: Livraria Acadêmica.
Eu já tenho outros dois blogs. Um dedicado à ecolinguística, cujo endereço é:
O outro é dedicado a questões ecológicas gerais, à vivência no campo desde o nascimento até 16 anos de idade e questões correlatas. Ele está disponível em:
O presente blog é dedicado a questões político-linguísticas, como mostra o título, ou seja, "Ilinguagem e glotopolítica".
O primeiro texto se intitula justamente "Ilinguagem".
Gostaria de ressaltar que a maioria desses textos foi escrita há muitos anos atrás, de modo que algumas referências estão defasadas. Além disso, algumas opiniões que expressei há muito tempo atrás não são mais as mesmas que tenho hoje. O essencial, porém, é o mesmo.
Boa leitura!